É possível uma educação crítica no ciberespaço?

 

Ilan Gur-Ze’ev

Professor da Universidade de Haifa, Israel

Trad. do Professor Newton-Ramons de Oliveira, da Unesp-Araraquara

 

 

         Os pensadores da educação crítica que apóiam os recentes progressos nas tecnologias da comunicação provêm de diferentes origens ideológicas: pós-modernistas “hard” ou “soft”, neomarxistas que trabalham dentro das estruturas da pedagogia crítica e aqueles engajados em leitura crítica, estudos culturais e discursos feministas, pós-colonialistas e multiculturais. Alguns concebem o ciberespaço como

 

“ambiente de texto total que em computação que dá origem à noção do texto virtual, com novas formas de interatividade e discursos emergentes que recaem em comunicação formal e em formas tradicionais de escolarização.”1

 

         Neste artigo, trato da resposta dos teórico-críticos aos desafios postos pelo ciberespaço. Parte desse discurso não segue a bandeira da “pedagogia crítica”, mas coloca-se sob títulos como “leitura crítica” ou “educação mediática crítica”. A tais atitudes refiro-me como “críticas”.

 

        Reconstruo as esperanças dos pensadores críticos quanto ao ciberespaço para tentar mostrar quais elementos específicos se conceituam como potencialmente críticos e emancipadores, e aprofundo seu significado. Concluo problematizando o conceito de educação e o conceito de crítica dos otimistas do ciberespaço; e articulo uma perspectiva diferente sobre o potencial educativo do ciberespaço dentro do quadro de uma contra-educação.

 

Grandes esperanças

 

        Michael Peters, Michele Knobel e Colin Lankshear sustentam grandes esperanças a respeito do ciberespaço;

 

“a transição dos textos impressos às formas e práticas dos textos eletrônicos, que é um espaço contínuo, abre-nos espaço para práticas ampliadas e destacadas de leitura crítica. Consideramos isto um tema simultaneamente urgente e estimulante para a educação. As atuais formas “fechadas” de consciência, que são  predominantes, podem impedir uma plena realização da leitura crítica dentro desse ambiente textual mutante”2

 

        Vale a pena aqui  observar que explicitamente vinculam seus projetos à tradição da pedagogia crítica3. Argumentam que a pedagogia crítica tradicional tem que mudar alguns de seus elementos freireanos centrais na direção apontada por Henry Giroux e George Landow, e, desse modo, mostram-se muito otimistas quanto à futura implementação da pedagogia crítica no ciberespaço.4 Knobel argumenta que estas esperanças fundam-se na pesquisa objetiva e que os objetivos principais da pedagogia crítica e de sua metodologia devem ser implementados dentro do quadro da leitura crítica como uma práxis radical no ciberespaço.5 Muffoleto defende uma posição semelhante.6 Por outro lado, alguns otimistas do ciberespaço referem-se à teoria crítica “contemporânea” como já realizada no ciberespaço, relacionando-a a Derrida e ao conceito de conhecimento em rede como uma alternativa (explícita) à teoria clássica de Adorno e Horkheimer e ao seu alegado conceito elitista de conhecimento e de transcendência.7 Outros otimistas do ciberespaço já são influenciados pelo discurso (“soft”) pós-moderno, mas, no entanto, preservam laços filosóficos mais fortes com a tradição da teoria crítica clássica, com seus pressupostos, objetivos e conceitos frente às novas possibilidades abertas pelas tecnologias da comunicação. Douglas Kellner é um representante da primeira tendência.  Kellner, um dos mais conhecidos estudiosos da Escola de Frankfurt, está profundamente envolvido com a tentativa de pôr em prática a teoria crítica clássica (na forma da pedagogia crítica de Paulo Freire) dentro do quadro da leitura crítica no ciberespaço. Em oposição aos representantes da segunda tendência — como Knobel, Peters e Lankshear —, ele  não pensa que elementos centrais da pedagogia crítica tenham que sofrer mudanças para uma aplicação bem sucedida da leitura crítica no ciberespaço.8 Stanley Aronowitz compartilha desse otimismo quanto à possibilidade de implementar a teoria crítica na condição pós-moderna.9 Outros pensadores críticos, como Nicholas Burbules e Suzanne Rice participam do otimismo de outros pensadores sobre o ciberespaço (com algumas reservas), mas não  consideram que  isto  seja alguma realização da pedagogia crítica; por vezes, até mesmo expressam certa distância desta tradição como influenciada por estudiosos como McLaren e Giroux.10

 

O ciberespaço e a emancipação

 

        Sob a influência do discurso pós-moderno, Landow compromete-se com a realização da teoria crítica dentro do ciberespaço ao mesmo tempo em que a emancipa de sua característica modernista “repressiva”: “Precisamos abandonar sistemas conceituais fundados sob idéias de centro, margem, hierarquia e linearidade substituindo-os por conceitos de multilienaridade, nós, elos (links*) e redes”.11 Landow insurge-se contra o conceito hierárquico de conhecimento e um padrão imposto aos estudantes por um conjunto de livros e relações hierárquicas entre o professor como aquele que sabe. Afirma que o ciberespaço é uma alternativa ao meio tradicional legitimado da interpretação “corretam, que reflete relações sociais assimétricas e opressão.12

 

        Segundo muitos críticos o “pos-estruturalismo e o código digital comum parecem  integrar o mesmo evento.”13 Concordo com a percepção do ciberespaço como uma das manifestações da condição pós-moderna. Mas a pedagogia crítica e seu telos, eu os vejo como manifestação do projeto emancipador do Esclarecimento e, assim, como essencialmente moderno, o que estabelece relações problemáticas quando  seus conceitos de crítica e de emancipação são postos ao lado dos vários conceitos afirmados pelas tendências pós-modernas.  Quando me refiro à pedagogia crítica de Paulo Freire e de Giroux, em sua primeira fase, bem como a um certo tipo da pedagogia crítica atual de Peter McLaren, as características modernas do projeto acabam centrais.

 

        Para Paulo Freire, a dicotomia sujeito-objeto e a possibilidade de conhecer “a realidade” da opressão é pré-condição para uma pedagogia emancipatória. 14 Ele acredita na “objetividade”15  e clama por uma educação na qual “o educador e revolucionário genuinamente humanista”16 vai pôr em cheque a educação hegemônica e seu contexto. Dentro da pedagogia crítica, é possível uma transcendência bem sucedida e este é o objetivo do diálogo, que identificará potenciais irrealizados que poderão ser realizados ou buscados dentro da pedagogia crítica.17 O Giroux inicial usa categorias econômicas marxistas para explicar a escola como um aparelho de reprodução politica e cultural18, vê a teoria crítica como um fundamento para ação social bem sucedida19 e considera a pedagogia crítica como uma ponte entre a teoria e a prática. O professor e a autoridade do conhecimento crítico são irremovíveis aqui do projeto emancipatório, que é concebido como um esforço coletivo.20

        Estas características da pedagogia crítica entram em choque com conceitos pós-modernos “soft” como subjetividade, identidade, diferença, contingência e fluidez, e com mais certeza ainda contra conceitos pós-modernos “hard” como a incomensurabilidade do sujeito ou a ausência de um “sujeito” ou de uma “realidade”. O próprio Giroux tinha consciência da tensão entre os dois domínios21, e sugeriu uma nova pedagogia crítica que faria a síntese de ambos. O que é digno de espanto, no entanto, é que quando pensadores que se vêem como integrados numa tradição de pedagogia crítica tentam explicitamente fazer pedagogia crítica no ciberespaço não enfrentam o vazio teórico entre uma pedagogia  crítica com contexto modernista e o ciberespaço como uma manifestação da condição pós-moderna. Em seu importante estudo “Pedagogia crítica e ciberespaço”, Colin Lankshear, Michael Peters e Michele Knobel se mostram conscientes da necessidade de rearticular a pedagogia crítica, mas não apresentam um aprofundamento teórico sistemático do fosso e da tensão que existem entre um projeto pós-moderno e um projeto do Esclarecimento. Em nosso ponto de vista, é de vital importância enfrentar esta tensão — ou, em outras palavras — aprofundar a própria possibilidade de uma teoria crítica e de uma educação emancipadora na arena pós-moderna, especialmente no contexto do ciberespaço. A ausência desta atividade é parte da outra problemática do conceito de pedagogia crítica sustentado pelos otimistas do ciberespaço. O tipo de pedagogia crítica que defendem possibilita que identifiquem as características anti-humanistas e anticríticas centrais do ciberespaço e acaba levando-os a desenvolverem injustificadas esperanças e expectativas quanto às possibilidades críticas do ciberespaço. Este artigo pretende contribuição nesta direção. Tento isto ao reconstruir a crítica dos otimistas do ciberespaço ao conceito de alta cultura e ao examinar o texto sustentado pelos estudiosos da teoria crítica e o texto  da pedagogia crítica tradicional. 

 

        No discurso pós-moderno, tanto a ideologia repressiva hegemônica quanto também a pedagogia crítica, como um projeto modernista bem intencionado, são orientados pela fundamentação e amplamente teorizados em torno de modelos de consciência baseados no livro como texto paradigmático. A institucionalização do livro como representação do conhecimento e das relações humanas hierárquicos no processo de escolarização modernista é, às vezes, concebida como mistificação das relações entre o verbo e o mundo bem como, portanto, como institucionalização de uma orientação enclausurante.  Este tipo de interpretação crê que tal mistificação seja desconstruída no ciberespaço.22 Lá ocorre a substituição do livro como texto paradigmático pelo hipertexto: este composto por blocos de textos e conexões eletrônicas (links) que faz as ligações. Landow não distingue hipermídia de hipertexto: a hipermídia simplesmente alarga a noção do texto no hipertexto ao incluir informação visual, som, animação e outros tipos de dados. O hipertexto liga uma passagem de discurso verbal a imagens, mapas, diagramas ou  sons a outra passagem verbal, expandindo a noção de texto para além do puramente verbal23 e permitindo a efetivação da pedagogia crítica no ciberespaço dentro de um conceito pós-moderno de conhecimento no qual a multiplicidade — e não a hierarquia — torna-se a característica mais importante.  Abre possibilidades que eram impossíveis no mundo moderno, no sentido de acesso a qualquer informação, possibilidades inesgotáveis de atingir o texto, editá-lo e apropriar-se dele  on line. A autoridade do autor ou a ideologia hegemônica é desconstruída pela possibilidade aberta de ilimitada mudança de autor ou de qualquer texto on line. Os hipertextos, ao contrário dos textos impressos, diz Burbules, são inclusivos.24

 

        De acordo com Burbules, o “link” desempenha um papel especial ao efetuar leitura crítica no ciberespaço e contém um potencial emancipador. Burbules, no entanto, mostra dimensões problemáticas do “link” também: embora possibilite o redesenhar ou reescrever de seus próprios hipertextos, o contato inicial que os usuários estabelecem com o hipertexto se dá por materiais criados por pessoas desconhecidas cujos motivos, valores, motivações e credibilidade estão quase que inteiramente fora do  alcance de suas percepções.25

 

        Outros pensadores, para os quais a era pós-moderna é aceita com menores reservas, vêem o ciberespaço como uma totalidade textual cuja transcendência já é realizada como um absoluto dotado de vida26 , o que realiza o mundo hegeliano na Web como Espírito.27 Acho que Burbules tem razão ao advertir-nos que o link é tanto uma linha que eu sigo quanto uma linha que nos circula “como a um peixe: a Web ou a Net é um conjunto de atalhos que eu exploro mas também uma teia ou uma  rede que nos captura.28 

 

        Em sua crítica à pedagogia crítica tradicional (freireana), Lankshear, Peters e Knobel questionam os conceitos modernos de forçar e de engajar-se por “colocar problemas”, dialogar, e criticar o currículo hegemônico.29  Numa perspectiva pós-moderna, alegam que, em que pese sua intenção, a pedagogia crítica permanece sob controle professoral e paternalista, criando, no máximo, uma ilusão de diálogo. Teorias gerais, conceitos transcendentais de conhecimento linear e outras características modernas trabalharam com ideais de “emancipação”, “justiça”, “igualdade” e “democracia radical” abstratos e descontextualizados.30 Por contraste, vêem como promissora a realização da pedagogia crítica de McLaren e a de Giroux no ciberespaço.

Nos termos desse ponto de vista,

 

“novas formas de textualidade e de intertextualidade — o hipertexto e a hipermídia — indicam direções promissoras para a reconstrução da consciência e do sujeito. No novo ambiente sob controle do leitor, este manipula os limites, as escalas e a topografia da unidade textual.”31

 

        A leitura não-crítica vê o ciberespaço como uma arena onde a identidade apresenta-se isenta de gênero e etnia, permitindo aos “usuários que possam flutuar livres de amarras biológicas ou socioculturais32 e formem comunidades virtuais solidárias e democracia virtual. Sob tal influência, muitos críticos abandonam a orientação crítica a favor de uma retórica que promete realização on line imediata de suas utopias positivas que até recentemente eles encobriam com o jargão da tradição crítica. Neste ponto de vista otimista, a solidariedade não nega a espontaneidade e a autoconstituição e o ideal dialógico realiza-se em comunidades virtuais que pesquisam em conjunto e reconstroem a si mesmas e às identidades dos participantes como indivíduos: realizam, assim, a elevação educativa dentro da hibridez, contingência e fluidez do ciberespaço. Abrem-se à crítica não apenas os enclausurados espaços institucionalizados modernos, mas realiza-se também sua alternativa pela derrocada do livro, bem como de sua cultura e de seu contexto social. Uma nova cultura emerge onde há novas possibilidades para interatividade e intersubjetividade entre os leitores-escritores que participam dessas comunidades virtuais sempre recriadas e reformuladas.

 

“Usuários regulares de quadros de avisos, grupos de discussão on line e assemelhados expressam entusiasmo pelas possibilidades de abrir conjuntos-carretel  e relacionamentos internos que são mais igualitários, movidos por propósitos, auto-impostos e automonitorados do que aqueles que vieram a caracterizar as práticas educativas dominantes.”33

 

        Muitos pensadores críticos compreendem o ciberespaço como uma “democracia radical”.34 Ainda que alerte quanto aos perigos das tecnologias dessa electrópolis, Kellner vislumbra “uma pós-modernidade positiva que envolveria assim a criação de uma sociedade mais igualitária e democrática na qual mais indivíduos e grupos teriam a força de participar.”35

        Os otimistas do ciberespaço  compartilham a visão de que o ciberespaço consiste num domínio onde se formam comunidades virtuais “espontaneamente” ou emergem por autodeterminação e se constituem por indivíduos que participam por livre vontade em comunicação não-censurada, caótica e dialógica cruzando fronteiras de disciplinas, culturas e conceitos cognitivos. Criam novos mundos através e dentro de diferenças e não, como no conceito moderno de conhecimento e inter-subjetividade, através de um impulso a suplantar ou destruir diferenças. A espontaneidade e o igualitarismo são vistos como capazes de suplantar relações assimétricas construídas socialmente e comunicação distorcida que se baseie em raça, sexo, etnia, nacionalidade e classe social.36

 

        Michele Knobel, por exemplo, segue Manuel Castells ao enfatizar corretamente que a crescente integração de texto, imagens e sons num mesmo sistema em interações a partir de múltiplos pontos, em tempo escolhido ao longo de um rede mundial em condições tidas como de “acesso aberto e disponível” oferece uma mudança fundamental para o caráter da comunicação humana.37 Knobel acredita, no entanto, que uma boa educação moral que esteja ligada ao desenvolvimento de habilidades operacionais e críticas na tradição crítica poderá efetivar a visão freireana de uma pedagogia crítica no ciberespaço.38 No utopismo positivo da tradição da teoria crítica da Escola de Frankfurt39, a realização do ideal de emancipação é aqui concebido como “arte e como uma forma de vida”.40 Aqui  concebe-se  “democracia” dentro de um quadro de uma futura erotização possível da existência, em que o “princípio do prazer” e o “princípio da realidade” deixarão de ser alienados para emergir-se num novo “princípio da realidade”.41

 

        Em outra versão da teoria crítica — desta vez, uma “totalmente” pós-moderna — George Landow compartilha o utopismo positivo de Knobel, Peters, Lankshear, Muffoletto e outros estudiosos da pedagogia crítica clássica. Sua versão de um utopismo positivo torna o ideal de herói poético de Richard Rorty num modelo para a vida no ciberespaço. Torna-se uma manifestação da “filosofia edificante” ou da “filosofia como uma maneira de vida”.

 

“Esta dissolução textual da centralidade, que torna o medium  tão potencialmente democrático, também o converte numa sociedade de conversação na qual nenhuma conversa, nenhuma disciplina ou ideologia domina ou fundamenta as demais. É, portanto, a realização do que Richard Rorty denomina “filosofia edificante”, cuja meta é “manter a conversa em andamento mais do que encontrar a verdade objetiva. É uma forma de filosofia... O hipertexto, que tem uma propensão embutida contra a “hipostasia” e, provavelmente, também contra descrições privilegiadas,  incorpora assim a abordagem da filosofia incentivada por Rorty. A experiência básica do texto, da informação e do controle, que transfere o domínio de força do autor ao leitor, modela um medium  pós-moderno e anti-hierárquico de informação, texto, filosofia e sociedade.” 42

 

 

Pedagogia crítica, leitura crítica e otimismo no ciberespaço

 

 

         O entusiasmo de Landow pelo ciberespaço é uma manifestação da relevância do pensamento moderno no que diz respeito a uma condição pós-moderna totalizadora. Esta fusão rearticula o conceito e a prática da educação. É importanto, acho, ver a figura mais amplamente em termos conceituais, culturais e sociais. Historicamente, tal reconstrução deveria referir-se à mudança na postura do conhecimento e nas tendências gerais dentro da cultura moderna e nas condições pós-modernas; nestas, teóricos da educação ligados  à teoria crítica neomarxista, pós-moderna “soft” e “hard” e aqueles de orientação funcionalista articulam seu otimismo quanto ao ciberespaço dentro de âmbitos feministas, poscolonialista, multiculturais e outros. Uma reconstrução histórica deste tipo é importante para a análise dos diferentes tipos de otimismo quanto ao ciberespaço. Também nos auxiliará a contextualizar o tipo especial de otimismo que vejo na visão de conceitos não-críticos de educação como o referido pelo presidente norte-americano Bill Clinton:

 

“Nosso esforço para unir cada sala de aula está apenas no começo... Mas não podemos parar aqui. À medida que a Internet se torna a nova praça de nossa cidade, um computador em cada lar — mestre de todos os assuntos, conexão com todas as culturas — não mais será um sonho mas uma necessidade. E pela próxima década, esta será nossa meta.”43

 

        Tal conceito combina com conceitos gerais dos direitistas: globalização capitalista, mercado livre e novos prospectos de uma “visão jeffersoniana” da democracia no ciberespaço. Isto eliminará “o fosso entre os ricos em conhecimentos e os pobres em conhecimentos”, como evidenciado na Carta Magna dos otimistas do ciberespaço.44 Como bem demonstra Langdon Winner, o otimismo dos autores da  Carta Magna a respeito da democracia no ciberespaço e da nova organização social que resultarão das atuais mudanças tecnológicas e econômicas é decepcionante em sua pretensão de que “o ciberespaço não é do governo:  é do povo ”.45 

       

Por ironia, isto não está muito longe da visão dos pensadores críticos como Mark Poster que reconstroem a história da democracia ocidental como conduzindo da agora grega aos “moos”* e à Internet como uma democracia genuina. Com algumas reservas, mas ainda concordando com a concepção corrente de outros pensadores críticos da educação, Poster fala bem parecido com Clinton a respeito do ciberespaço como uma democracia radical com fundamento na condição pós-moderna.  “Agora novos grupos da Internet, jogos moos  e outras comunidades virtuais são promovidas como esferas públicas emergentes que renovarão a democracia no século XXI.”46 Poster conclui que a visão democrática da teoria crítica do tipo habermasiana já é irrelevante hoje; não há mais espaço para a esfera pública onde cidadãos racionais e autônomos formulem e reformulem o bem comum. A questão democrática deve levar em conta não apenas novos modos eletrônicos de discurso; tem também que reformular o “assunto”.47

 

        Técnicas como a realidade virtual, os modos de comunicação e de inter-subjetividade medida por computadores, como os “muds” e os “moos” permitem e encorajam ciberutópicos de orientação funcionalista ou pós-moderna numa linha que vai  de Bill Clinton até  Donna Haraway e Douglas Kellner. Não estou dizendo que os autores da direitista Carta Magna e Poster ou Kellner tenham a mesmo postura, no entanto, mantêm idêntico otimismo. O fato de os pensadores críticos não conseguirem traçar uma linha divisória que os separe dos otimistas de direita deve ser estar claro em nossas mentes. Mostra bem a importância de se compreender a postura da tecnologia per se  e, em especial das atuais tecnologias de comunicação,48 as mudanças sociais e as atuais possibilidades e limitações culturais. Não se trata apenas de possibilidades teóricas: como prova do que afirmo, trata-se de assunto de urgência real, uma ação que deve ser tomada para realizar a nossa presente responsabilidade e potencial.

 

        A questão do ciberespaço e a posição problemática da pedagogia crítica, da leitura crítica e dos pensadores críticos da educação em geral esclarecem a atual demolição das divisões ideológicas tradicionais, tendências filosóficas e políticas, possibilidades e limitações educativas. Refletem a corrente degeneração do conceito.49 No ciberespaço, o conceito é domesticado pelo domínio da auto-evidência e suas práticas e reintroduzido como parte da “realidade” da qual se exila o eros  crítico. Como uma arena simbólica totalizadora, o ciberespaço desempenha um papel especial aqui e coloca questões que devem ser encaminhadas. Estas referem-se ao presente e ao futuro do conceito e da temática humana, o desejo de compreender e as possibilidades de desafiar o que se mostra evidente por si  mesmo, ao mesmo tempo em que abandona o apelo pelo “totalmente outro”. Neste quadro, deveria questionar a postura do conhecimento e as possibilidades que ainda se abrem à inter-subjetividade dialógica dentro de um sistema governado pela nova tecnologia, capitalismo globalizante e nova organização social. É errado separar a pedagogia crítica, a leitura crítica ou a educação crítica e o ciberespaço das questões da globalização capitalista. Igualmente errado, segundo penso, é deixarmos de reformular a questão do que é a educação hoje e de quais são as possibilidades atuais para uma filosofia da educação crítica dentro desse contexto.

 

 

Visão alternativa do ciberespaço e  educação crítica

 

 

         Não é de se admirar que pensadores críticos como Landow, que vêem seu conceito de hipertexto e de comunicação como efetivação do pensamento de Roland Barthes, Michel Foucault  Jacques Derrida50 e outros pós-modernistas “hard”, não enfrentar o otimismo do ciberespaço  com uma reconstrução crítica do capitalismo globalizante, com suas tecnologias, e a indústria cultural, que reflete e realça a continuidade do desenvolvimento deste modo de produção. É mais difícil, no entanto, explicar o otimismo dos pós-modernistas “soft” neste tema. Os pensadores crítico pós-modernos “soft” geralmente indicam os prospectos de se ultrapassar a marginalização dos grupos e classes culturais, sexuais e etnicos, reforçando sua autocolocação potencial e sua “voz”, abrindo novas possibilidades de diálogo entre diferenças, rearticulação cultural e democracia radical.

 

        A dificuldade que vejo na posição dos pós-modernistas “soft” que saudam as novas possibilidades educativas no ciberespaço vai ainda mais longe. Diz respeito às questões da democracia e das possibilidades críticas e emancipatórias. Abrange também as verdadeiras possibilidades de decisões significativas e de responsabilidade no ciberespaço. Em tais assuntos, deveria separar as posturas dos otimistas do ciberespaço pós-modernos “hard” e “soft”. Se limitarmos nossa reflexão aos otimistas pós-modernos “soft” poderemos levantar algumas questões.

 

        Defendo que, em vários graus e maneiras, a influência da pós-modernidade e a força sugestiva da ordem capitalista acabou por dissolver o eros revolucionário ou transcendental nesses pensadores críticos e domesticou os modos e objetivos de sua educação crítica. No ciberotimismo, o pensamento dialético é tomado pela fé no paralogismo interno ao sistema. Aqui não pode haver espaço para o sujeito e para o diálogo transformador. Em contraste com a pedagogia tradicional, o conceito pós-moderno de paralogismo e contingência não pode ir além da possibilidade de mudança em direção à Utopia Esclarecida de emancipação. Se tenho razão, então esses pensadores críticos seguem pós-modernos como Lyotard, que põem suas esperanças no paralogismo incontrolado do sistema capitalista e estão à beira de rompimento com o objetivo central da pedagogia crítica. De acordo com Lyotard,

 

“A informatização da sociedade ... poderia tornar-se o
instrumento sonhado para controlar e regular o sistema de mercado, com inclus
ão do próprio saber, que seria  dirigido exclusivamente pelo princípio do desempenho... Mas poderia também auxiliar grupos de discussão dos metapreceitos suplementando-os com a informação de que geralmente carecem para tomar decisões fundamentadas.” 51

 

        Acho que a adoção do paralogismo pós-moderno e dos jogos de linguagem52 não pode ser inserido no projeto crítico da teoria crítica e da pedagogia crítica sem um sério trabalho filosófico. Este trabalho ainda tem que ser feito pelos pensadores críticos que adotaram atitudes pós-modernas em sua pedagogia crítica. Mesmo que tomassem essa atitude, restaria saber até que ponto ainda poderia ser considerado uma pedagogia crítica ou mesmo uma educação crítica mesmo.

 

        A explicação histórica deve ser atualizada dentro de uma reconstrução que mostre a transferência da ênfase e desenvolvimento das implicações educativas, por um lado,  dos últimos escritos da teoria crítica de Adorno e Horkheimer e, por outro lado, do tipo de pedagogia crítica de Paulo Freire; o mesmo procedimento deve ser tomado quanto a pedagogia crítica pós-moderna de Giroux e a chamada pedagogia crítica de contrabando, de McLaren. E, no bastidor,  é importante  mencionar os pensadores da pedagogia pós-crítica ou da não-crítica, como, de um lado, Burbules e Ellsworth e, do outro lado, Masschelein e Biesta, cada um trilhando caminhos educacionais próprios.  Estes defendem as possibilidades da crítica como central a uma educação atual crítica via o pós-moderno “soft” e os discursos feministas e pragmaticos, enquanto aqueles se referem a uma filosofia revisitada mesmo que relacionada com os discursos pós-modernos, onde se sente mais em casa com a problemática posta pelo pós-modernismo “hard”. Contra este fundo, apresento a contra-educação, que aprofundarei quanto às suas implicações para o utopismo positivo dos adoradores críticos da electrópolis.

 

        Peter McLaren ocupa uma posição especial no sentido de que não abandonou a proposta da tradição crítica de uma revolução, mas reconhece as realidades da sociedade pós-moderna e da globalização capitalista. Com os fundamentos do princípio “esperança” de Bloch, reintroduz “Che” como um exemplo modelar do educador crítico ético.53 O otimismo de McLaren não é posto em questão mesmo quando conclui a respeito do avanço do capitalismo global:

 

“como as economias simbólicas continuam a proliferar externamente a um monolítico relacionamento casual com o capital, criando uma variedade maior de posições do sujeito a assumir, as possibilidades também cresceram para ... formas globais de culturas travestidas.”54

 

        Apoiando-se na reconstrução de Frederick Jameson da “descentralização global e da instituição do microgrupo”55 , McLaren, como tantos outros pensadores críticos da educação, também tem dificuldade em justificar seu otimismo pela Internet.  Seus problemas dizem respeito a fundar com segurança a esperança pelo novo proletariado internacional futuro e pela revolução numa realidade pós-moderna.

 

“Temos sido exilados a uma hiper-realidade pós-humana — numa condição cujas dimensões deixamos de reconhecer e que são temíveis a uma plena compreensão. .. Para mim, a era pós-moderna é aquela em que a democracia torna-se historicamente subvertida pelo capitalismo numa extensão jamais existente, onde os valores tornam-se um efeito especial e radicalmente incomensurável.”56

 

        Enquanto descreve a maneira como o capitalismo global está conquistando a cultura local, considera a alteridade de outras culturas dentro desse processo de globalização como uma parte “autêntica” do ciberespaço.

 

“Creio mesmo que vivemos numa sociedade agora que está baseada na administração e articulação de disposições. Mas precisamos lembrar que nosso investimento afetivo nos objetos materiais ou fetiches de consumidores está ligado às relações de produção e à política de consumo que precisa ser específica do ponto de vista geopolítico e de contextualização. Não mais vivemos numa sociedade de objetivos, numa sociedade orientada a objetivos. Acho que tal tipo de sociedade esteve ligada predominantemente a uma sociedade orientada à imprensa e presa ao capitalismo industrial por maneiras específicas.”57

 

        Contudo, McLaren não abandona o projeto emancipatório da pedagogia crítica, sem a rearticulação sobre as quais insistem  Lankshear, Peters e Knobel. 58 A pedagogia crítica, em sua opinião, pode, afinal de contas, ser implementada no ciberespaço e desafiar a ordem vigente.59 Mas em sua própria reconstrução, não encontro justificativa contextual para isto. Só posso entender seu otimismo como manifestação do princípio  esperança, que explicitamente toma do utopismo teológico de Ernst Bloch. Este tipo de esperança pertence à modernidade, é transcendental e religioso. É concebido como “metafísico” e irrelevante pelos escritores pós-modernos que ele gosta de ler, é deixado de lado pela maioria dos otimistas do ciberespaço críticos e firma uma tensão entre seu projeto e o de Henry Giroux que são freqüentemente tomados como um único e mesmo projeto.

 

        Se o ciberespaço é fundamentalmente uma simples parte do sistema pós-moderno que não contém qualquer transcendência e se, como manifestação do capitalismo acelerado, não traz qualquer revolução ou mudança essencial do sistema, então pergunto como  compreender esses otimistas críticos e a afinidade da esperança de liberdade, igualdade e democracia deles com o tipo de esperança dos otimistas de direita ?

 

        Central ao capitalismo global são sua flexibilidade em contraste com o “fordismo61 e o desaparecimento do mercado físico, o que põe em questão a identificação da mercadoria com sua representação e da economia com a cultura. Como demonstra Frederick Jameson, aqui está o processo dentro do qual a recepção do processo de consumo é vital para a “hollywoodização” da realidade, que evidencia a lógica cultural do atual capitalismo.62 Essa flexibilidade pós-fordista é requerida em todos os níveis e arenas da vida — desde o fluxo das finanças até a produção e consumo de mercadorias, identidades e conhecimento (que se transforma em informação) e até em escolas.63 Tecnologias de informação eletrônica são vitais nesse processo em termos não só de velocidade mas também de diversidade e flexibilidade numa modalidade em que ninguém pode participar — independentemente de classe, sexo, etnia, raça, incapacidade e idade — como consumidor-produtor efetivo no mercado capitalista: apenas assim e, certamente, não como sujeito efetuando sua autonomia potencial ou sua alteridade. O tipo especial de diversidade (de mercadorias e de reificados conhecimentos, identidades e paixão) que é vital para o capitalismo global não é negado mas fertilizado pela unidimensionalidade representada pela lógica da atual tecnologia. Eis um fenômeno que torna irrelevantes tanto a distância quanto a superfície e privilegia o lapso de tempo. E, por outro lado, encontramos o tempo global, que pertence à multimídia, ao ciberespaço, crescentemente dominando o quadro temporal de nossas cidades e vizinhanças. Pode-se falar como Paul Virilio do “global” como parcela de um processo em que “o local por definição torna-se global e o global, local”.64 Aqui a racionalidade instrumental não tem o desafio da tradição da razão objetiva, ao contrário do que  sempre ocorreu na história da cultura ocidental.65 O triunfo da racionalidade instrumental resulta na mercantização do conhecimento, dos discursos e das relações humanas dentro de uma cultura global que estimula o folclore da  “diversidade” (às custas das culturas tradicionais, que assim se dissolvem),  localidade e cultura popular. Realiza isso através de um processo de nivelamento “democrático” que tudo tritura em caquinhos de mesmice. Este processo abrange a criação, estocagem, seleção, distribuição e consumo de informação, paixões e reações, desconsiderando fronteiras nacionais, interesses coletivos, censuras, transcendências ou privilégios, tudo  que seja problemático para a formalização ou digitação econômica ou matemática66 e que resista ao ingresso no cibespaço sob suas condições.  

 

        Considerar isoladamente as tendências “democráticas” de “voz”, de símbolos descentrados e paixões flutuantes no ciberespaço, bem como o tipo de “democracia radical” que Mark Poster e Kellner visualizam no ciberespaço  e não relacionar tudo isso com o atual estágio de desenvolvimento do capitalismo é um grande erro. Penso que o ciberespaço e o processo de globalização do capitalismo são inseparáveis. Tanto como tendência econômica quanto como uma lógica, um mundo de paixões, esperanças e coexistência humana narcisista onde não há qualquer espaço para o “totalmente outro” do que a ordem presente,67 nem, com certeza, para a alteridade do Outro.68  Ao mesmo tempo e como parte da atual indústria cultural, há mais necessidade de louvar o “livre vontade”, a subjetividade, o relativismo, a diversidade, a democracia, a fluidez, o prazer e o pensamento crítico — desde que seja parte e parcela da mesma ordem desumanizante. Esta opinião é sustentada também por Gilles Deleuze e por Felix Guattari, que estão entre os mais influentes pensadores pós-modernos que marcaram as obras dos educadores críticos de hoje. Na esteira de tais pensadores, mesmo de um ponto de vista pós-moderno, não existe espaço para esse tipo de otimismo atual que a maioria dos críticos (pós-modernos) tem relativo à Internet. Deleuze e Guattari sustentam que na idade pós-moderna a filosofia como pensamento contextual crítico está em sua posição mais problemática da história da cultura ocidental:

 

 “Finalmente, o momento mais vergonhoso aconteceu quando a ciência da informática, o marketing, o design e a propaganda, todas elas disciplinas da comunicação, tomaram posse da própria palavra conceito  e disseram: ‘Eis nossa competência, nós é que somos criativos, os homens que pensam ! Somos amigos do conceito, nós o inserimos em nossos computadores’. Informação e criatividade, conceito e empresa: já temos uma bibliografia abundante. O marketing preservou a idéia de certa relação entre o conceito e o evento. Aqui o conceito tornou-se o conjunto de apresentação de produtos ... e o evento tornou-se a exposição que monta várias apresentações e a  ‘troca de idéias’  que se supõe deva provocar. Os únicos eventos são exibições e os únicos conceitos são os produtos que podem ser vendidos.”69

       

O capitalismo globalizador só pode acontecer num mundo pós-moderno, mas a condição para reprodução das condições pós-modernas e de sua indústria cultural envolve a reprodução de condições modernas e pré-modernas em suas beiradas: a produção mais eficiente de software não pode evitar os modos de produção da modernidade e da pré-modernidade para aqueles que foram excluídos para as margens. Todos participam do capitalismo global, mas com certeza nem todos participam do modo de produção e distribuição pós-modernos. A diferenciação de modos de produção coloca em confronto e recria diferentes relações de produção e uma opressora organização social em escala global. Não que as classes sociais se tornem categoria ultrapassada ou alienação irrelevante. Tornam-se mais sofisticadas, internalizadas e veladas no centro da afluência capitalista ou mais agudas nas periferias do Ocidente e do Terceiro Mundo. Simultaneamente exacerbam a lógica da opressão e consumo disseminando-a por seus mitos, tecnologias e mercadorias como processo global tanto no consciente como no emocional de suas vítimas ou agentes.

 

        Para mim, o ciberespaço só pode mesmo reproduzir a lógica do sistema unidimensional que se tornou totalmente racional e no qual toda dialética, alienação e discordância são conquistadas, digeridas ou destruídas. Em seu centro, as relações de força são disfarçadas, pois tudo se torna visível, externalizado, aberto e “livre” para todos os parceiros competentes.  Todos os sinais distintivos tornam-se iguais a si mesmos e fica impossível negá-los num terreno totalmente racional destituído de história, eros ou traços da alteridade; sem mistério ou transcendência — e, portanto, sem significado. De acordo com Paul Virilio,

 

“o que se tem é um distúrbio na percepção do que é a realidade: é um choque, uma concussão mental ... nunca progride numa técnica que foi atingida sem dirigir-se a seus aspectos especificamente negativos. O que há de negativo nessas supervias de informação é exatamente esta perda de orientação quanto à alteridade (o outro), este distúrbio na relação com o outro e com o mundo. É óbvio que esta perda de orientação , essa não-situação, abortará numa crise profunda que vai afetar a sociedade e, portanto, a democracia.”70

 

        No interior do ciberespaço, com tecnologias de realidade virtual, a Internet, os “moos” e assemelhados reproduzem um certo tipo de representação —  na qual só há espaço para diversidade, contingência, temporalidade, fluidez, hibridez e espetáculo  “horizontais”— que prosperam enquanto apóiam com eficiência a ulterior produtivização do sistema. Como tal, o ciberespaço rivaliza com todas tentativas tradicionais de eternizar, mistificar ou desmistificar a realidade e permite um novo tipo de educação modeladora. Para nós, eis aqui a educação modeladora mais avançadamente niilista que já ameaçou a humanidade.

 

        Dentro do ciberespaço a produção de mitos e o controle da informação, identidade e consciência estão sendo transferidos da hegemonia de instituições ideológicas — como o Estado, o partido e outras — para outras forças mais sofisticadas , que são menos visíveis, menos abertas à crítica e a resistência. 71 A lógica do controle, eficiência e produtividade se faz presente no ciberespaço mesmo quando se afasta explicitamente do texto discursivo, linear e competente para favorecer uma arena digital metafórica “pré-textual” constituída por livre jogo de ícones, intuições, elos retóricos e espetáculo.72 A educação modeladora não desaparece; apenas se torna mais sofisticada, produtiva e efetiva e menos transparente à medida que a necessidade do sistema internacional exija uma sofisticação cada vez mais acentuada e capacidade de reflexão e de flexibilidade cada vez mais controlada e avançada — características funcionais para a reprodução capitalista e o progresso tecnológico. A opressão aqui dispensa o opressor. É internalizada e representada por suas próprias vítimas como agentes entusiasmadíssimos do sistema. A alta modernidade precisava mesmo de uma indústria cultural em que os passivos consumidores fossem realmente manipulados. A condição pós-moderna precisava da iniciativa, criatividade, flexibilidade e potencial crítico dos consumidores, que se tornam produtores eficientes e criativos dentro do sistema.

 

        Os pensadores críticos da educação que estão alertas contra “os perigos” dentro do ciberespaço e pedem uma educação para o pensamento crítico, leitura crítica e atividades afins, deveriam, em minha opinião, contextualizar essas esperanças diante da atual indústria cultural e de seus aparelhos educativos modeladores. Mas, ao mesmo tempo, também deveriam fazer as perguntas básicas: qual é a postura quanto à questão humana? Quais  as atuais condições para que esse combate realize seu potencial dialógico, sua autonomia potencial ou autocriação — ou, ainda, o fundamento para a falta de significado  do conceito de autonomia potencial dos homens? Qual a tomada de posição do saber sob tais condições e será que existe algum espaço, hoje, para a busca do diálogo? Sob tais condições, é possível que o sujeito entre em diálogo ou faça uma real reflexão? Existem momentos de negatividade que venham a decifrar sinais ontológicos e colocar em cheque a mesmice reinante? Há espaço para a  transcendência no ciberespaço e para um esforço do sujeito em ser algo mais do que um mero objeto ou sujeito desumanizado ? E se a resposta para algumas dessas questões ou para todas for negativa, no que isso implicaria para nós seres humanos?

 

Educação modeladora, sujeito e ciberespaço

 

          Afirmo que o objetivo da educação é a modelagem dos seres humanos e o nivelamento de todos a meras coisas. Trata-se de um processo violento, pelo qual se expulsa a alteridade do sujeito, permitindo que funcione como agente do sistema, como algo e não como alguém. Nessa condição, supõe-se que o sujeito seja produtivo em reproduzir a vigente ordem das coisas e o domínio hegemônico de auto-evidência. Quanto mais eficiente é a educação modeladora hegemônica, tanto mais apaixonadamente as pessoas se agarram às algemas que as impedem de ser o que poderiam vir a ser e tanto mais efetivamente se vela o mecanismo que as constituiu como agentes do sistema.73 O objetivo da educação modeladora é fazer o sujeito olvidar-se de um “totalmente outro” que não seja a presente ordem e seu potencial humano irrealizado. A meta não são as pessoas propriamente como “outros”, mas o “outro” sistema de que elas se tornaram  agentes, servidores e adoradores. Tradicionalmente a educação modeladora destinava-se à colonização “interna” e “externa”, de modo que o Outro lhe era de vital importância: o “sujeito”  é usado pelo sistema dentro de uma estrutura etnocêntrica para combates contra outros  “sujeitos”  e sistemas e contra a alteridade do  “sujeito”. O  saber, a identidade, as paixões, a função social e a produtividade do sujeito têm que garantir a reprodução bem sucedida do sistema e suas vitórias sobre oposições internas e externas. No entanto, também tem que garantir  rivais equipados com suas agendas próprias a bem da “educação”, “salvação” ou “destruição” eficientes de seus Outros. A violência simbólica conquista ou cria os centros de relações de força e dinâmica para possibilitar a violência direta nas formas ecológicas, econômicas, militares e outras. Assegurada a vitória, torna-se possível a orquestração da estrutura emocional, paixões, aparatos conceituais, consciência e funcionamento social do sujeito modelado que, como tal, na verdade nunca é um sujeito.74 O saber moral e sua relação com conceitos cognitivos são elementos vitais dentro deste tipo de violência, que é a essência da educação75  como subjetivação. Seres humanos modelados, na verdade, realizam a morte do sujeito, no sentido de que, privados de sua alteridade, são sempre substituíveis.

 

        Estes breves comentários sobre a essência da educação modeladora estão articulados a partir de uma perspectiva de contra-educação, que implica numa negação filosófica, existencial e política da educação modeladora. Ao contrário da pedagogia crítica e de outras versões da educação crítica, a contra-educação não tem uma utopia positiva.76 Insiste, no entanto, na possibilidade de uma luta pela autoconstituição dialógica e responsabilidade moral para a alteridade do Outro e do combate do sujeito para suplantar o que se tornou quando constituído pela educação modeladora.77

 

        Para nós, o ciberespaço é um ambiente pós-moderno  prima facie. Isto determina as possibilidades e limitações do sujeito, mesmo se, ao mesmo tempo, possa inserir-se em contextos modernos e até em contextos pré-modernos que atravessam o ciberespaço.  Como é típico dos otimistas do ciberespaço, Landow põe uma longa citação de Foucault na abertura de seu livro e Lankshear, Peters e Knobel começam seu artigo citando Haraway que diz “vivemos num movimento que vai da indústria orgânica para um sistema informacional polimórfico — do trabalho de todos para o jogo de todos, um jogo mortal.”78

        Haraway,  representante dos pensadores críticos que se espantam com o discurso pós-moderno “hard”, é bem explícito no tema do assunto pós-moderno, o cyborg: “um ciborg  é um organismo cibernético, híbrido de máquina e organismo, uma criatura tanto da realidade social quanto da ficção”.79 Os antimetafísicos, antifundamentalistas, essencialistas, universalistas e transcendentalistas da “hard” pós-modernidade desse tipo manifesta-se, também, no pensamento dos críticos que se vêem integrantes da pedagogia crítica. Tentam divulgá-la  ao ciberespaço como arena para a emancipação que a teoria crítica da Escola de Frankfurt e a pedagogia crítica de Paulo Freire procurou em vão na condição socio-econômica, cultural e tecnológica da modernidade. De acordo com Lankshear, Peters e Knobel  “o ciberespaço põe em questão a estabilidade e a coerência do livro e das formas de narração estimuladas por ele. Mas, igualmente, recorre exatamente a eles mesmos, relacionando-os ao sujeito”.80 Juntamente com Haraway, Saarinen e outros,81 celebram o  “buraco-sem-fundo”82 que torna possível a convergência da máquina e do sujeito em “sujeitos mutantes” e a “fluidez de identidade no ciberespaço”83 que, ao lado de outras condições do ciberespaço, eventualmente permitirão a realização bem sucedida do projeto emancipatório da pedagogia crítica.

 

        As influências pós-modernas “soft” tais como aquelas articuladas no pensamento crítico de Burbules e Rice (e com certeza em Kellner, que ainda trabalha dentro do quadro teórico da modernidade) rejeitam o total da mera contingência, hibridez e fluidez de informações, paixões, identidades e relações e indicam a ameaça que tudo isso representa à educação crítica.84 Ao mesmo tempo, Burbules identifica grandes possibilidades para o florescer do sujeito crítico dentro do ciberespaço”85 Considero que neste tema do sujeito, a reconstrução dos pós-modernistas “hard” entre os pensadores críticos da educação descreve muito melhor a situação do sujeito do que aquela oferecida pelos pós-modernistas “soft” como Burbules and Rice. No entanto, não posso participar de tal celebração.

 

        A modelagem no ciberespaço, defendo, é diferente da reprodução da metafísica ocidental tradicional e suas grandes narrativas por grandes escritores. O domínio pós-moderno da auto-evidência não precisa que escritores e interprétes da verdade textual o legitimem. Tradicionalmente prosperaram na religião, filosofia, arte, ciência e tecnologia tanto na família, quanto na igreja, na escola, no exército, nas prisões e em outros locais de modelagem e disciplina onde a “verdade” ou os valores corretos ou padrões sejam revelados, transferidos e internalizados.

        A concepção de razão universal do Esclarecimento e o potencial humano para a autonomia, diálogo e emancipação tornaram possível o compromisso com a igualdade e dignidade no seio das diferenças.86 Neste quadro, onde o Espírito e a tradição da razão objetiva eram o fator dominante ao lado da racionalidade instrumental, houve espaço não apenas para a eficiente violência educacional da modernidade, mas também para a realização arrogante da verdade, justiça, beleza e felicidade. Como prova do que afirmo, houve também um potencial para a contra-educação, como prática crítica do Eu ético que, frente ao irrespondível, confrontado pela abertura, insignificância e infinidade, luta pelo diálogo, reflexão e transcendência. Houve espaço também para a alternativa de orientação existencialista, e até para o niilismo e pessimismo, como posições filosóficas sérias que tomaram consciência da responsabilidade do sujeito humano e  ativaram o potencial por decisões significativas e de autocriação mesmo quando isto significasse suicídio para as maiores manifestações de soberania.87 Aqui o Eu ético assume a responsabilidade pela alteridade do Outro e o ser humano é efetivado como outro e não como ser. Somente assim, diz Levinas, o Eu é insubstituível.88

 

        Na pós-modernidade, onde a racionalidade instrumental domina, torna-se bem problemática a possibilidade de lutar pela autonomia, autocriação e diálogo, e até mesmo para fazer uma escolha genuína entre as diferenças. Em “A ética da autenticidade” Taylor pergunta: “Pode um modo de vida centrado no self* , num sentido que significa tratar nossos pares como meramente instrumentais, justificar-se à luz do ideal de autenticidade?” Responde que, no âmbito social — ao qual entendo que o ciberespaço pertence na condição pós-moderna — a resposta é claramente sim”.89 Mas podemos ver as relações humanas como instrumentais a nosso desempenho e, assim, como fundamentalmente experimental? “Aqui a resposta é mais fácil. Com certeza, não, se também constituem nossa identidade”, diz Taylor.90 Enquanto o sujeito está privado de sua alteridade e abandona o suplantar erótico da diversidade que lhe é dada como mesmice, o “sujeito” é portador de identidades fluidas e substituível por alguns dos demais “sujeitos”. Como tal, não lhe resta opção de julgamento ou de decisão  maior do que um capricho “criativo” ou uma reflexão de sugestiva força efetiva do sistema; nem mesmo pode ser responsabilizado pela realização de sua negligenciada humanidade.

 

        Deste ponto de vista, as possibilidades do “sujeito” pós-moderno no ciberespaço em criar comunidades descentradas e não-censuradas e diálogos com outros,91 e para escolher livremente informação, estratégias críticas e inovadoras, fins e identidades parecem muito duvidosas. É por isso que tanto os pós-modernistas “hard” quanto os “soft” defendem que no ciberespaço os “sujeitos” são constituídos dentro de uma esfera que está isenta de remédios modernos e pré-modernos como  mistério, eros, significado, responsabilidade e fins. O jogo não-instrumental, pragmático ou “estético” não pode ser isolado da auto-evidência metafísica, da hierarquia de valores, das narrativas e do saber que têm sido demolidos na condição pós-moderna. A metafísica como violência é um imperativo a fim de destruir ou recolocar a violência (visível) e a educação modeladora. É um elemento constitutivo em alienação  que é desafiado pelo Eu ético ou pela busca utópica que transcende a mesmice e a auto-evidência. Como vimos, mesmo para os críticos pós-modernos a celebração se dá em relação a uma alegada emancipação da tirania das pretensões metafísicas de  “essência humana” , “autenticidade”, “fins dignos”, “compromissos morais” e “carências humanas”. Apenas assim, aprisionados em “suas” narrativas, ficam estes críticoslivres para escolher o que lhes aprouver” no ciberespaço — se abandonam a metafísica da presença. Como demonstração, veja-se que se requer que abandonem a alteridade e a responsabilidade para com o Outro e o “ainda-não”, bem como que se esqueçam da abertura ao ser.

 

        Este tipo de emancipação da metafísica promete conduzi-la agradavelmente a uma abertura quantitativa e enganadora e a uma infinidade falsa e sem sentido. Como parte da mesmice produtiva e infinda, o sujeito torna-se totalmente identificado com significantes de um sistema anti-essencialista; não um criador de conceitos, significante e significado, mas um mero agente e uma sombra do movimento de significantes num simulacro infinito, que tem infindas manifestações de nada. Torna-se um elemento na mesmice a que Sócrates, Kierkegaard, Nietzsche e Levinas ofereceram admirável resistência.

 

        Creio que, sob tais condições, uma “livre decisão” de adquirir certa identidade, certa maneira de viver ou de saber manifesta o sucesso da desumanização do sujeito. Em tal dinâmica, o “sujeito” não pode lutar para atingir seus potenciais de autonomia.  Nem mesmo há espaço para tal conceito como idéia reguladora. Na verdade, não há mais espaço para lutar pela vida humana que não seja uma simples força que se retém  a si mesma.

 

        Em outras palavras, em tal arena o sujeito não pode ser outro do que é construído para ser, mesmo como “sujeito”  indefinido, instável, fluido. Não pode relacionar-se com o “totalmente outro” em si mesmo e no Outro, e não pode lutar para superar-se, transcender a auto-evidência, e mudar a presente ordem das coisas. No ciberespaço, abandonar a negação dos fatos correntes e a busca de realização do “ainda-não” ou do eixo utópico são  imperativos da lógica interna do sistema. O mundo pós-metafísico não abandona o conceito: ele o reintroduz como paixões, como impulsos. Como parte e parcela do sistema pós-moderno, estes são anti-eróticos: demandam o abandono do Espírito crítico e do diálogo como maneira de vida. Mantêm, mas como irrelevante, o diálogo como luta do sujeito humano para ser alguém, um  Eu ético relacionado à eternidade e totalmente responsável para a alteridade92 e não para manter a ordem das coisas.

 

        Burbules se esforça em provar  que, mesmo na Internet, há espaço para a leitura crítica no sentido de que o sujeito que se vê diante de um texto e de conexões (links) pré-construídas pode criticamente reconstruir a ideologia oculta, as manipulações comerciais e outras características que aí estejam atuantes. Enquanto reconhece os problemas e os perigos da Internet, podemos, ele argumenta, pragmaticamente educar para sensibilidades e virtudes comunicativas (não apenas habilidades críticas) e para leituras críticas na Internet.93 Mas mesmo essa versão mais reflexiva do otimismo pelo ciberespaço não questiona a existência real de um sujeito no ciberespaço. Nem justifica, de fato, a possibilidade de padrões não-manipuladores ou não-caprichosos, idéias ou paixões que vão regular ou tornar possível essa avaliação crítica ou esse processo de crítica da ideologia.

 

        Na ausência de uma perspectiva ou distância crítica, mesmo que ideal , podemos questionar o que pode me garantir, dentro desse quadro, que a prática crítica não será mero reflexo da força de sugestão ou lógica do sistema que supomos criticar? De um ponto de vista da contra-educação, enquanto não houver espaço para a transcendência, a reflexão é impossível e, portanto, o sujeito se torna um “sujeito”. Para o Eu ético, a reflexão é uma questão de vida ou morte pela dimensão humanista que permite elementos negativos e positivos no combate ideológico, na luta de sua subjetividade. Os otimistas do ciberespaço representam características gerais da educação como modelagem e não abrem as portas para a contra-educação e para a reflexão no ciberespaço.

 

         Se a educação aparece como membro modelado no ciberespaço, a impossibilidade de escapar dessa modelagem na Internet estabelece que as relações dialógicas em seu interior também serão impossíveis. A ausência da alteridade do Outro assegura a futilidade do esforço em dar força aos grupos marginalizados e em dar-lhes um espaço para que ergam suas “vozes”  silentes. Se chegar a ser ouvida será no âmbito capitalista da unidimensionalidade e estará dominada pela lógica do sistema que eliminará ou, pelo menos, colocará em risco sua especificidade.

 

        O diálogo, sustento, é impossível sem um eixo utópico, sem uma ética comum e esforço político de transcender a realidade dada. O diálogo é um tipo especial de relação humana em que a alteridade do Outro é reconhecida pelo Eu ético não apenas como relevante e legítima, mas também como condição na luta pela própria tomada de posição.  O ciberespaço por ser um espaço antitranscendental, contingente e anti-essencialista impossibilita o desejo pelo bem, a negação da produção do auto-evidente ou o desvelar da mentira como compromisso moral. Na realidade virtual, na Internet ou nos seus dispositivos, os aparatos hegemônicos ou autocompreendidos e sua lógica oculta criam a “verdade” ou a “informação relevante” contingente e as paixões reinantes que ficam inquestionadas pois não há posição transcendental, necessária ou significativa ou  ideal que questione aqueles e sua lógica interna. Tornou-se impossível esforçar-se pela desmistificaçào do mundo e para resistir à desumanização dos indivíduos e das comunidades virtuais. Até mesmo a negaçào dos falsos protestos pela relevância, validade ou normalidade tornam-se impossíveis onde só há informação, identidades e relações meramente contingentes e fluidas como um “jogo livre” que serve ao  “mercado livre” e ao desordenado avanço tecnológico.

 

        O elemento constituinte do ciberespaço é a mesmice, que se camufla como diversidade infinita, “diferença”e contingência. Não há espaço para diálogo quando o sistema simula manifestar total abertura e, assim, o fim da alienação e opressão; daí que a luta contra a opressão ou a busca de transcendência, pelo “totalmente outro”  ou pelo “não-ainda”  apareçam como ingênuas, obsoletas ou até opressoras. No entanto, a “abertura” e a “liberdade de escolha” ou a autoconstituição, que o ciberespaço finge realizar, atualizam um infinito que é totalmente diferente daquele a que se referiam  Kierkegaard, Rosenzweig, Adorno ou Levinas: é uma abertura que contém um infinito quantitativo, não um infinito qualitativo. Nela, a mesmice veste as roupas da abertura à “diferença” — mas só enquanto parte e parcela do sistema e de sua lógica interna. A lógica antagônica não tem acesso ao sistema se não estiver interpretada e transformada de acordo com os requisitos e papéis desse sistema totalizador. Não há espaço para a alteridade do Outro e para o infinito afluente desta alteridade que Levinas assinala na “face” do  “Outro”.94 O ciberespaço como uma máquina do prazer garante a impossibilidade da busca erótica pelo diálogo, pois a Utopia já foi alcançada e efetivada. Agora somos convidados apenas a consumir seus prazeres e empurrar sua efetivação nas fronteiras infinitas da mesmice.

 

        O diálogo é o campo em que a luta pela reflexão como possibilidade aberta pode acontecer. Dentro dele, a alteridade do Outro — “interno” ou “externo” — como uma reflexão do infinito e  abertura ao ser permite a realização da transcendência no exato momento. A Utopia negativa como uma busca positiva combate em circunstâncias concretas e abre a possibilidade de um momento especial de intersubjetividade não-violenta. Essa intersubjetividade não-violenta envolve reconhecer a diferença, a diferença total e, portanto, é um combate, não uma celebração de machos brancos, racionais e de classes dominantes como é usualmente concebida no Esclarecimento tradicional. Eis porque a contra-educação só pode atuar dentro dos horizontes de um diálogo.

 

        Uma das manifestações centrais da contra-educação é a reflexão. A reflexão é uma qualidade do Eu ético relativo a outro sujeito como alguém, não como um objeto de manipulação, não como alguém cuja alteridade tem que ser destruída. Dentro do diálogo, os compromissos morais do sujeito antecedem a razão e suas potencialidades cognitivas. O sujeito luta para se rearticular como parte da elevação do Outro como manifestação do “totalmente outro”. Ao assim fazer, o parceiro do diálogo contribui para o esforço de mudar o contexto do diálogo de tal modo que eleve as potencialidades do diálogo que somos.

 

        Como parte da intesubjetividade humana e como um processo social, cabe à reflexão não apenas um papel mas também um lugar. A linguagem é o lar da reflexão, contudo não pode oferecer transparência, “verdade”, “fatos” ou “autenticidade” — nem uma “emancipação” prazerosa para sua arrogância. Num diálogo, os significados nunca são “dados”95 ou “bits”/bocados de afetos como no espaço simbólico ou na velocidade simbólica que é a comunicação no ciberespaço.

 

        A transferência da educação modeladora da modernidade à educação modeladora da pós-modernidade deixa intocada a educação modeladora e não altera o significado da opressão e da emancipação. Nem abriu novas possilidades para tratar ou suplantar a classe, a raça, o gênero, a etnia e outras manifestações de opressão, mistificação e desumanização do Outro e do self , como afirmado pelos pos-modernistas “soft”. Como demonstrei, tornou mais problemática do que antes a luta contra a educação modeladora e contra o presente estado das coisas.

 

A contra-educação e o ciberespaço como máquina do prazer

 

        Na melhor das hipóteses, afirmo, o ciberespaço é uma gigantesca máquina do prazer. Nela, o sujeito  é desfalcado de sua alteridade e perdemos o espaço para o  diálogo e para a transcendência do dado.  Como, então, deveria perguntar, é possível enfrentar essa máquina do prazer, se é que há alguma chance? Será possível desafiar a auto-evidência ou o dado self  no interior de uma máquina que oferece prazer total e que contém avanços a novas experiências e coloca novos prazeres à disposição do sujeito? Uma resposta possível é não. É impossível ao próprio sujeito desligar-se da máquina do prazer final desde que onde há prazer total e unidimensional ou busca de prazer desaparece a autonomia e sua responsabilidade pelo “ainda-não” ou contra o mal.  Aqui, onde se abandona a alteridade, onde o sujeito se abstrai de sua possível autonomia e responsabilidade, desaparece o espaço para diálogo com a alteridade do Outro. A contra-educação, parece, é impossível quando não há espaço para o eros e para aquele tipo especial de transcendência como ato ético de negação da mesmice e do dado.

 

        Acho, no entanto, que mesmo no ciberespaço como máquina do prazer o sujeito sempre se torna apenas um  “sujeito”  e não um mero objeto — não interessa o quanto se devote ao  nada como se este fosse o lar pelo qual sempre tanto sonhou. Mesmo como um cidadão devoto do ciberespaço que se tornou um simples  “sujeito”, ele está exposto a todo momento à abertura do ser: o “totalmente outro” pode explodir do “exterior” do sistema e “desligá-lo”. O imprevisível e o incontrolável que são incubados no ser como abertura infinita poderia reformular o mundo e fazer renascer o que foi esquecido ou desconstruído na Net : o eros, a reflexão, a transcendência e o Eu ético então saltariam com indomável pulo de tigre a um diálogo historicamente situado.

 

        É essa possibilidade que pode forçar o agente da máquina do prazer a ficar face a face com sua (ausente) humanidade e com a falta de significado da vida não apenas no ciberespaço mas também na utopia do diálogo. A utopia negativa poderia introduzí-lo como um ímpeto pela luta que deixa a utopia positiva ingênua para alcançar a maturidade humana e a autoconstituição sem afirmações essencialistas ingênuas e sem o prometido escapismo da máquina do prazer da pós-modernidade. A imprevisibilidade do ser poderia abrir a possibilidade de enfrentar os desafios fundamentais da humanidade. Num instante, ele poderia tornar-se um sujeito e a contra-educação emergiria como uma utopia (negativa) concreta pela qual vale a pena lutar. Basta isto para que seja possível manter a contra-educação como relevante mesmo que no ciberespaço.

 

        Outra fonte de relevância é a construção sociocultural em que o ciberespaço se efetiva. A cidadania no ciberespaço como máquina do prazer é condicionada pelo capitalismo global, que reproduz desigualdades sociais entre aqueles que têm capital cultural e habitam a máquina do prazer e aqueles que  o sistema determina como excluídos. Esta desigualdade, esta alienação e injustiça, esta recusa ao diálogo, tornam a contra-educação relevante e não apenas para os que são deixados lá fora da máquina do prazer e que batem à porta para serem admitidos e possam ficar “ligados”.  A contra-educação também se torna relevante para aqueles que já estão dentro do novo lar que a condição pós-moderna construiu. Mas o preço que pagam é a luta esmagadora para tornar-se parte da mesmice e juntar-se à insignificância dos opressores, que só admite sofrimentos e se mostra infensa a suas paixões, esperanças e linguagens. A contra-educação, no entanto, só pode ser negada, suplantada e combatida pela reflexão e pela transcendência ali onde ainda haja alienação e alteridade (potencial) que permita a realização do Eu ético e a luta pelo estabelecimento do diálogo.

 

        A efetivação da contra-educação é condicionada por muitos componentes que o êxito da condição pós-moderna tem tornado impotentes. Quando os críticos propõem suplantar os “perigos”  e os constrangimentos embutidos no ciberespaço, assumem que a subjetividade do sujeito está mantida e que este pode escolher entre diferentes opções, emancipar a si e aos outros, efetivando o Espírito crítico nessa nova arena. Para nós, a própria crítica, bem como a “escolha” entre “diferenças”, podem esconder a mesmice imposta pelo sistema como parte de sua reprodução. Para nós, a efetivação do Espírito crítico não está garantida e, com certeza, ainda não é compreendida por si mesma. O exílio do Espírito e a subjetivação que produz um “sujeito” tornam a contra-educação uma utopia, pois o sujeito e o diálogo hoje se reduzem a uma utopia. É justamente por isso que a contra-educação é relevante, frente à pretensão de se realizar a utopia na máquina do prazer e frente a frente com a miséria, a dor e as paixões irrealizadas que tornam possível a produtividade do sistema capitalista, coroado agora pelo ciberespaço.  



* Alguns termos da informática são traduzidos quando possível , mas  referidos no original quando o texto o exija. É o que ocorre com “link” (= ligação, elo, conexão), “web” (teia, em www= wide world web ) e “net”(Internet=rede); “hard” (exaltados) ou “soft” (moderados)  (nota do tradutor)

* Moos e Muds – jogos no estilo RPG na Internet em que vários usuários operam ao mesmo tempo. (nota do tradutor)

* Self- o eu, a própria pessoa,  a  personalidade. (Michaelis, São Paulo/Wiesbaden: Melhoramentos/Brockhaus, 1973)



1 Peters, M. and Lankshear, C. (1996) Critical Literacy and Critical Texts, Educational Theory 46, 1, p. 61.

2 Ibid., p. 53.

3 Lankshear, C. Peters, M e Knobel, M. - Critical Pedagogy and Cyberspace, in Giroux, H. , Lankshear, C. , McLaren, P. & Peters, M. (eds.) Counternarratives: Cultural Studies and Critical Pedagogies in Postmodern Spaces, (Nova Iorque, 1996) p. 149. Peters, M. & Lankshear, C. - Critical Literacy and Critical Texts, Educational Theory (1996)  46, pp. 52-53.

4 Ibid. , p. 160.

5 Knobel, M. – Critical Literacy and the New Technologies, http://www.schools.ash.org.au/litweb/michele/html 06-08-1998.

6 Muffoleto, R. – Towards a Critical Pedagogy of Media Education,

   http://muffoleto/coe.uni.edu/summer96/critical-pedagogy.html.  17-01-1999.

7 Landow, G. -  Hypertext: the Contemporary Critical Theory and Technology (Baltimore e Londres, 1992), p. 23.

8 Kellner, D., Media Literacies and Critical Pedagogy in a Multicultural Society,

  http://www.gseis.ucla.edu/courses/ed253a/newDK/medlit.htm. 12.1997.

9 Menser M. e Aronowitz, S.  - On Cultural Studies, Science and Technology, in Aronowitz, S. Martinsons, B. Menserr, M.  e Rich J. (eds), Technoscience and Cyberspace (Nova Iorque e Londres, 1996), p. 14.

10 N. Burbules e Rice, S. -  “Dialogue across Differences: Continuing the Conversation”, Harvard Educational Review (novembro de 1991)61, 4, p. 397.

11 Landow, G. - Hypertext: the Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, (Baltimore, 1992) p. 2.

12 Lankshear, C., Peters, M.  & Knobel, M., Critical Pedagogy and Cyberspace, p. 155.

13 Ibid., 160.

14 Freire, P. -  Pedagogy of the Oppressed (Jerusalém, 1981) p. 37 (em hebraico).

15 Ibid., p. 40.

16 Ibid., 84.

17 Ibid., pp. 97-103.

18 Giroux, H. - Culture and the Process of Schooling, (Philadelphia, 1981), p. 70.

19  Ibid., p. 82.

20 Ibid., p. 83.

21 Giroux, H. -  Border Pedagogy and the Politics of modernism/postmodernism, JAE, (1981) 44, 2, p. 72.

22 Ibid. p. 161.

23 Landow, ibid. , p. 5.

24 Burbules, N., Rhetorics of the Web: Hyperreading and Critical Literacy.

25 Ibid.

26 Taylor, M. & Saarinen, E. -  Imagologies: Media Philosophy, (Nova Iorque, 1994), p. 2.

27 Ibid., Simcult 3.

28 Burbules, N. Aporias, Webs and Passages (aguardando publicação no Curriculum Inquiry).

29 Lanshear, Peters & Knobel, ibid. , pp. 151-153.

30 Ibid. p. 154.

31 Kellner, ibid. , p. 7.

32 Dery. </ - Flame Wars in  Flame Wars: the Discourse of Cyberculture, (Duke, 1994) p. 7.

33 Ibid, p. 167.

34 Kellner, ibid., p. 7.

35 Ibid., p. 11.

36 Peters & Lankshear, p. 65.

37 Knobel, Critical Literacy and new Technologies, p. 6.

38 Ibid., 9.

39 Gur-Ze’ev, I – Walter Benjamin and Max Horkheimer: from Utopia to Redemption, Journal of Jewish Philosophy and Thought 8, pp. 119-155.

40 Marcuse, H. – Die Zukunft der Kunst, Neues Forum S., (novembro/dezembro de 1967) p. 863-870.

41 Marcuse, H. – Liberation from the Affluent Society, in David Cooper (ed.), The Dialectics of Liberation  (Londres, 1971) p. 185.

42  Landow, ibid.

43 Clinton, B. State of the Union Address, White House, 1997.

     http://www.whitehouse.gov.WH/SOU97/

44 Dyson, E., Gilder, G., Keyworth G. & Toffler, A. – Cyberspace and the American Dream: a Magna Carta for the Knowledge Age, Release 1.2, Progress and Freedom Foundation, Washington, D.C.,  August 22, 1994, em

http://www.townhall.com/pff/position.html 17-08-1999.

45 Winner, L. – Cyberlibertarian Myths and the Prospects for Community,

http://www.rpi.edu/~winner/cyberlib2.html 17-08-1998.

46 Poster, M., The Net as a Public Sphere?

     http://www.wired.com/wired/3.11/departments/poster/if/html

47 Poster, M., CyberDemocracy: Internet and the Public Sphere,

    http://www.hnet.uci.edu/mposter/writings/democ.html  12-11-1998,  p. 11.

48 Standish, P. Only Connect: Computer Literacy from Heidegger to Cyberfeminism, Conference Papers of the Philosophy of Education Society of Great Britain (Oxford, 1998) , pp. 100-116.

49 Tenenbaum, A. Prolegomena for a ‘Post-critical’  Education, in Gur-Ze’ev, I. (ed) Critical Theory and Education – Studies in Education 2, 2, p. 93.

50 Landow, Ibid, pp. 3, 25.

51 Lyotard, J.F. – The Postmodern Condition: a Report on Knowledge,  traduzido por G. Bennington e B. Massumi (Manchester, 1991) , p. 67.

52 Landow, ibid., p. 66.

53 McLaren, P. – Critical Pedagogy and Predatory Culture (Nova Iorque, 1995), p. 226.

54 Ibid., 179.

55 Ibid.

56 McLaren, P. – Revolucionary Multiculturalism (Oxford, 1997), p. 231.

57 Ibid, p. 230.

58 McLaren, P. _ Che, the Pedagogy of Che Guevara: Critical Pedagogy and Globalization Thirty Years After Che.  Cultural Circles, 3, (verão de 1998)  p. 80.

59 McLaren, P. – Traumatizing Capital: Oppositional Pedagogies in the Age of Consent, in  Castells, M., Flecha, R., Greire, P., Giroux, H., Machedo, D., Willis, P. Critical Education in the New Information Age (London, no prelo) , p. 30.

61 Harvey, D.  The Condition of Postmodernity, p. 47 (citado in  Norman Fairclough, Global Capitalism and Critical Awareness of Language.

      http://www.schools.ash.org.au/litweb/norman1.html  24-6-1999,  p.2

62  Jameson, F. – Postmodernism, or The Cultural Logic of Late Capitalism, (Durham, 1991).

63 Arnold, M. – The High-Tech, Post-Fordist School, Interchange, 27,  3-4, (1996) p. 229.

64Virilio, P. – Speed and Information: Cyberspace Alarm! Le Monde Diplomatique, traduzido por Riemens, P. in http://www.ctheory.com/a30-cyberspace_alarm.html.  p. 2 (17-8-1998)

65  Adorno, T. & Horkheimer, M. Dialektik der Aufklaerung (Frankfurt a.Main, 1988), p. 1-2.

66 Habermas, J. Der Politische Diskurs der Moderne (Frankfurt a. Main, 1989) , p. 136.

67 Horkheimer, M. – Die Sehnsucht nach dem ganz Anderen, Gesammelte Schriften, 7 (Frankfurt a. Main, 1985) , p. 385-404.

68 Levinas, E. – From Existence to Ethics, The Levinas Reader (Oxford, 1989) , p. 47.

69 Deleuze G. e Guattari, F. What is Philosophy?  tradução por Tamlinson, H. & Burchell, G. (Nova Iorque, 1989), p. 10.

70 Virilio, Paul, ibid.

71 Bauman, Z. – Is there a Postmodern Sociology, Culture and Society, 5, 2-3, 222.

72 Lanham, L.R. –The Electronic World: Democracy, Technology, and the Arts. (Chicago e Londres, 1993), pp. 34-37.

73  Gur-Ze’ev, I – The exile of Spirit and Counter-Education, in Philosophy, Politics and Education in Israel. (Haifa, no prelo)

74 Masschelein, J. – Wandel der Öffentlichkeit und das Problem der IdentitäZeitschrift für Pädagogik 28 (1992) p. 62.

75 Gur-Ze’ev, I. – The Morality of Acknowledging/Not-acknowledging the Other’s Holocaust/Genocide, Journal of Moral Education, 27, 2, (1998), p. 161.

76 Gur-Ze’ev, I. – Toward a Nonrepressive Critical Pedagogy, Educational Theory, 48, 4, p. 463. (1998)

77 Gur-Ze’ev, I. – Modernity, Postmodernity and Education (Introduction) in  Gur-Ze’ev, I. (ed.) Modernity, Postmodernity and Education. (Tel-Aviv, no prelo).

78 Peters and Knobel, Ibid.¸p. 149.

79

80 Lankshear, Peters e Knobel, ibid, p. 161.

81 Turkle, S. The Second Self: Computers and the Human Spirit. (Nova Iorque, 1985) , p. 276.

82 Garrison, J. – Foucault, Dewey, and Self-creation, Educational Philosophy and Theory 30, 2, (1998) p. 111.

83 Lankshear,Peters and Knobel, ibid.

84  Rice, S. e Burbules, N. – Communicative Virtues and Educational Relations,

     http://www.ed.uiuc.edu/pes92-does/rice_burbules.htm  1.12.1999.

85  Burbules, N. – Rhetorics of the Web: Hyperreading and Critical Literacy,

     http://www.ed.uiuc.edu/facstaff/burbules/ncb/papers/rhetorics.html. p. 2 – 11.8.1998.

86 Taylor, C. Multiculturalism and  “the Politics of Recognition”(Princeton, 1992),  p. 41.

87 Gur-Ze’ev, I. – The Frankfurt School and the History of Pessimism (Jerusalém, 1996) , p. 21.

88 Levinas, E. Ethics and the Infinite; Conversations with Philippe Nemo, tradução de Meir, E. (Jerusalém, 1982) , p. 76, (em hebraico).

89 Taylor, C. – The Ethics of Authenticity (Cambridge e Londres, 1991), pp. 50-51.

90 Ibid. 52.

91 Turkle, S.  Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet. (Nova Iorque, Londres e Toronto, 1995),  p. 20.

92 Levinas, E. – God and Philosophy, Collected Philosophical  Papers (Dordrecht, 1987),  p. 166.

93 Rice & Burbules, Communicative Virtues and Educational Relations, pp. 4-6.

94 Levinas, E. – Philosophy and the Idea of Infinity, in Collected Philosophical Papers, tradução de Lingis, A. (Dordrecht, Boston e Lancaster, 1978).

95 Gur-Ze’ev, I. , Masschelein, J. e Blake, N. – Reflection, Conference Papers of the Philosophy of Education Society of Great Britain.  (Oxford, 1998),  p. 224.