É possível uma educação crítica no ciberespaço?
Ilan
Gur-Ze’ev
Professor
da Universidade de Haifa, Israel
Trad.
do Professor Newton-Ramons de Oliveira, da Unesp-Araraquara
Os pensadores da educação crítica
que apóiam os recentes progressos nas
tecnologias da comunicação
provêm de diferentes origens ideológicas: pós-modernistas “hard” ou “soft”, neomarxistas que trabalham dentro das
estruturas da pedagogia crítica
e aqueles engajados em leitura crítica, estudos culturais e discursos feministas, pós-colonialistas e multiculturais. Alguns concebem o ciberespaço como
“ambiente de texto total que em computação que dá origem à noção do texto virtual, com novas formas de interatividade e discursos
emergentes que recaem em comunicação formal e em formas tradicionais de escolarização.”1
Neste artigo, trato da resposta dos teórico-críticos aos
desafios postos pelo ciberespaço. Parte desse discurso não segue a
bandeira da “pedagogia crítica”, mas coloca-se sob títulos como
“leitura crítica” ou “educação mediática crítica”. A
tais atitudes refiro-me como “críticas”.
Reconstruo
as esperanças
dos pensadores críticos
quanto ao ciberespaço
para tentar mostrar quais elementos específicos se conceituam como potencialmente críticos e emancipadores, e aprofundo seu significado. Concluo
problematizando o conceito de educação e o conceito de crítica dos otimistas do ciberespaço; e articulo uma perspectiva diferente sobre o potencial educativo do
ciberespaço dentro do quadro de uma
contra-educação.
Michael
Peters, Michele Knobel e Colin Lankshear sustentam grandes esperanças a respeito do ciberespaço;
“a transição dos
textos impressos às
formas e práticas
dos textos eletrônicos,
que é um espaço
contínuo, abre-nos espaço para práticas ampliadas e destacadas de leitura crítica. Consideramos isto um tema simultaneamente urgente e estimulante
para a educação. As
atuais formas “fechadas” de consciência, que são predominantes, podem impedir uma plena
realização da leitura crítica dentro desse ambiente textual mutante”2
Vale
a pena aqui observar que
explicitamente vinculam seus projetos à tradição da pedagogia crítica3. Argumentam que a pedagogia crítica tradicional tem que mudar alguns de seus elementos
freireanos centrais na direção
apontada por Henry Giroux e George Landow, e, desse modo, mostram-se muito
otimistas quanto à futura implementação da pedagogia crítica
no ciberespaço.4 Knobel argumenta que estas esperanças fundam-se na pesquisa objetiva e que os
objetivos principais da pedagogia crítica e de sua metodologia devem ser implementados dentro do quadro da
leitura crítica
como uma práxis
radical no ciberespaço.5 Muffoleto defende uma posição semelhante.6
Por outro lado, alguns otimistas do ciberespaço referem-se à teoria crítica “contemporânea”
como já realizada no ciberespaço, relacionando-a a Derrida e ao conceito de conhecimento em rede como
uma alternativa (explícita)
à teoria clássica
de Adorno e Horkheimer e ao seu alegado conceito elitista de conhecimento e de
transcendência.7
Outros otimistas do ciberespaço já são influenciados pelo discurso (“soft”) pós-moderno, mas, no entanto, preservam laços filosóficos
mais fortes com a tradição da
teoria crítica clássica, com seus pressupostos, objetivos e conceitos frente às novas possibilidades abertas pelas tecnologias
da comunicação.
Douglas Kellner é um representante da primeira tendência.
Kellner, um dos mais conhecidos estudiosos da Escola de Frankfurt, está
profundamente envolvido com a tentativa de pôr em prática
a teoria crítica
clássica (na forma da pedagogia
crítica de Paulo Freire) dentro
do quadro da leitura crítica
no ciberespaço. Em
oposição aos representantes da
segunda tendência
— como Knobel, Peters e Lankshear —, ele
não pensa que elementos
centrais da pedagogia crítica
tenham que sofrer mudanças
para uma aplicação bem
sucedida da leitura crítica
no ciberespaço.8 Stanley Aronowitz compartilha desse
otimismo quanto à possibilidade de implementar a teoria crítica na condição pós-moderna.9 Outros pensadores críticos, como Nicholas Burbules e Suzanne Rice
participam do otimismo de outros pensadores sobre o ciberespaço (com algumas reservas), mas não
consideram que isto seja alguma realização da pedagogia crítica; por vezes, até mesmo expressam certa distância desta tradição
como influenciada por estudiosos como McLaren e Giroux.10
O ciberespaço e a emancipação
Sob
a influência do discurso pós-moderno, Landow compromete-se com a realização da teoria crítica dentro do ciberespaço ao mesmo tempo em que a emancipa de sua característica modernista “repressiva”: “Precisamos
abandonar sistemas conceituais fundados sob idéias de centro, margem, hierarquia e linearidade substituindo-os por
conceitos de multilienaridade, nós, elos (links*) e
redes”.11
Landow insurge-se contra o conceito hierárquico de conhecimento e um padrão imposto aos estudantes por um conjunto de livros e relações hierárquicas entre o professor como aquele que sabe. Afirma que o ciberespaço é uma alternativa ao meio tradicional legitimado
da interpretação
“corretam, que reflete relações
sociais assimétricas
e opressão.12
Segundo
muitos críticos o “pos-estruturalismo e
o código digital comum
parecem integrar o mesmo evento.”13
Concordo com a percepção do
ciberespaço como uma das manifestações da condição pós-moderna.
Mas a pedagogia crítica
e seu telos, eu os vejo como manifestação do projeto emancipador do Esclarecimento e, assim, como
essencialmente moderno, o que estabelece relações problemáticas
quando seus conceitos de crítica e de emancipação são
postos ao lado dos vários
conceitos afirmados pelas tendências pós-modernas. Quando me refiro à pedagogia crítica de Paulo Freire e de Giroux, em sua primeira
fase, bem como a um certo tipo da pedagogia crítica atual de Peter McLaren, as características modernas do projeto acabam centrais.
Para
Paulo Freire, a dicotomia sujeito-objeto e a possibilidade de conhecer “a
realidade” da opressão é pré-condição para uma pedagogia emancipatória. 14 Ele acredita na “objetividade”15 e clama por uma educação na qual “o educador e revolucionário genuinamente humanista”16
vai pôr em cheque a educação hegemônica e seu contexto. Dentro da pedagogia crítica, é possível uma transcendência
bem sucedida e este é o objetivo do diálogo, que identificará potenciais irrealizados que poderão ser realizados ou buscados dentro da pedagogia
crítica.17
O Giroux inicial usa categorias econômicas marxistas para explicar a escola como um aparelho de reprodução politica e cultural18,
vê a teoria crítica
como um fundamento para ação
social bem sucedida19 e considera a pedagogia crítica como uma ponte entre a teoria e a prática. O professor e a autoridade do conhecimento
crítico são irremovíveis
aqui do projeto emancipatório,
que é concebido como um esforço coletivo.20
Estas
características da pedagogia crítica entram em choque com conceitos pós-modernos “soft” como subjetividade, identidade,
diferença, contingência e fluidez, e com mais certeza ainda contra
conceitos pós-modernos
“hard” como a incomensurabilidade do sujeito ou a ausência de um “sujeito” ou de uma “realidade”. O próprio Giroux tinha consciência da tensão
entre os dois domínios21,
e sugeriu uma nova pedagogia crítica que faria a síntese
de ambos. O que é digno de espanto, no entanto, é que
quando pensadores que se vêem
como integrados numa tradição de
pedagogia crítica
tentam explicitamente fazer pedagogia crítica no ciberespaço não enfrentam o vazio teórico entre uma pedagogia
crítica com contexto modernista
e o ciberespaço
como uma manifestação da
condição pós-moderna. Em seu importante estudo “Pedagogia crítica e ciberespaço”,
Colin Lankshear, Michael Peters e Michele Knobel se mostram conscientes da
necessidade de rearticular a pedagogia crítica, mas não
apresentam um aprofundamento teórico sistemático
do fosso e da tensão que
existem entre um projeto pós-moderno
e um projeto do Esclarecimento. Em nosso ponto de vista, é de vital importância enfrentar esta tensão — ou, em outras palavras — aprofundar a própria possibilidade de uma teoria crítica e de uma educação
emancipadora na arena pós-moderna,
especialmente no contexto do ciberespaço. A ausência
desta atividade é parte da outra problemática do conceito de pedagogia crítica sustentado pelos otimistas do ciberespaço. O tipo de pedagogia crítica que defendem possibilita que identifiquem as características anti-humanistas e anticríticas centrais do ciberespaço e acaba levando-os a desenvolverem injustificadas esperanças e expectativas quanto às possibilidades críticas
do ciberespaço.
Este artigo pretende contribuição nesta direção.
Tento isto ao reconstruir a crítica dos otimistas do ciberespaço ao conceito de alta cultura e ao examinar o texto sustentado pelos
estudiosos da teoria crítica
e o texto da pedagogia crítica tradicional.
No
discurso pós-moderno,
tanto a ideologia repressiva hegemônica quanto também a
pedagogia crítica,
como um projeto modernista bem intencionado, são orientados pela fundamentação e amplamente teorizados em torno de modelos de consciência baseados no livro como texto paradigmático. A institucionalização do livro como representação do conhecimento e das relações humanas hierárquicos
no processo de escolarização
modernista é, às
vezes, concebida como mistificação das relações
entre o verbo e o mundo bem como, portanto, como institucionalização de uma orientação enclausurante. Este
tipo de interpretação crê que tal
mistificação seja desconstruída no ciberespaço.22 Lá ocorre a substituição do livro como texto paradigmático pelo hipertexto: este composto por blocos de
textos e conexões
eletrônicas (links) que faz as ligações. Landow não distingue hipermídia
de hipertexto: a hipermídia
simplesmente alarga a noção do
texto no hipertexto ao incluir informação visual, som, animação e outros tipos de dados. O hipertexto liga uma passagem de discurso
verbal a imagens, mapas, diagramas ou
sons a outra passagem verbal, expandindo a noção de texto para além do
puramente verbal23 e permitindo a efetivação da pedagogia crítica
no ciberespaço
dentro de um conceito pós-moderno
de conhecimento no qual a multiplicidade — e não a hierarquia — torna-se a característica mais importante.
Abre possibilidades que eram impossíveis no mundo moderno, no sentido de acesso a qualquer informação, possibilidades inesgotáveis de atingir o texto, editá-lo e apropriar-se dele on line. A autoridade do autor ou a
ideologia hegemônica é
desconstruída
pela possibilidade aberta de ilimitada mudança de autor ou de qualquer texto on line. Os hipertextos, ao
contrário dos textos impressos, diz
Burbules, são
inclusivos.24
De
acordo com Burbules, o “link” desempenha um papel especial ao efetuar leitura
crítica no ciberespaço e contém um potencial emancipador. Burbules, no entanto, mostra dimensões problemáticas do “link” também: embora possibilite o redesenhar ou reescrever de seus próprios hipertextos, o contato inicial que os usuários estabelecem com o hipertexto se dá por materiais criados por pessoas desconhecidas
cujos motivos, valores, motivações e credibilidade estão quase que inteiramente fora do
alcance de suas percepções.25
Outros
pensadores, para os quais a era pós-moderna é aceita com menores reservas, vêem o ciberespaço como uma totalidade textual cuja transcendência já é realizada como um absoluto dotado de vida26
, o que realiza o mundo hegeliano na Web como Espírito.27 Acho que Burbules tem razão ao advertir-nos que o link é tanto
uma linha que eu sigo quanto uma linha que nos circula “como a um peixe: a Web
ou a Net é um conjunto de atalhos que eu exploro mas também uma teia ou uma rede que nos captura.28
Em
sua crítica à pedagogia crítica tradicional (freireana), Lankshear, Peters e
Knobel questionam os conceitos modernos de forçar e de engajar-se por “colocar problemas”, dialogar, e criticar o
currículo hegemônico.29
Numa perspectiva pós-moderna,
alegam que, em que pese sua intenção, a pedagogia crítica
permanece sob controle professoral e paternalista, criando, no máximo, uma ilusão de diálogo.
Teorias gerais, conceitos transcendentais de conhecimento linear e outras
características modernas trabalharam
com ideais de “emancipação”,
“justiça”, “igualdade” e “democracia
radical” abstratos e descontextualizados.30 Por contraste, vêem como promissora a realização da pedagogia crítica
de McLaren e a de Giroux no ciberespaço.
Nos termos desse ponto de vista,
“novas
formas de textualidade e de intertextualidade — o hipertexto e a hipermídia — indicam direções promissoras para a reconstrução da consciência
e do sujeito. No novo ambiente sob controle do leitor, este manipula os limites,
as escalas e a topografia da unidade textual.”31
A
leitura não-crítica vê o ciberespaço como uma arena onde a identidade apresenta-se isenta de gênero e etnia, permitindo aos “usuários que possam flutuar livres de amarras biológicas ou socioculturais32
e formem comunidades virtuais solidárias e democracia virtual. Sob tal influência, muitos críticos
abandonam a orientação crítica a favor de uma retórica que promete realização on line imediata de suas utopias positivas que até
recentemente eles encobriam com o jargão da tradição crítica. Neste ponto de vista otimista, a
solidariedade não
nega a espontaneidade e a autoconstituição e o ideal dialógico
realiza-se em comunidades virtuais que pesquisam em conjunto e reconstroem a si
mesmas e às identidades dos
participantes como indivíduos:
realizam, assim, a elevação
educativa dentro da hibridez, contingência e fluidez do ciberespaço. Abrem-se à crítica não
apenas os enclausurados espaços
institucionalizados modernos, mas realiza-se também sua alternativa pela derrocada do livro, bem como de sua cultura e
de seu contexto social. Uma nova cultura emerge onde há novas possibilidades para
interatividade e intersubjetividade entre os leitores-escritores que participam
dessas comunidades virtuais sempre recriadas e reformuladas.
“Usuários regulares de quadros de avisos, grupos de
discussão on line e
assemelhados expressam entusiasmo pelas possibilidades de abrir
conjuntos-carretel e
relacionamentos internos que são mais igualitários,
movidos por propósitos,
auto-impostos e automonitorados do que aqueles que vieram a caracterizar as práticas educativas dominantes.”33
Muitos
pensadores críticos
compreendem o ciberespaço
como uma “democracia radical”.34 Ainda que alerte quanto aos perigos das
tecnologias dessa electrópolis,
Kellner vislumbra “uma pós-modernidade
positiva que envolveria assim a criação de uma sociedade mais igualitária e democrática
na qual mais indivíduos
e grupos teriam a força de
participar.”35
Os
otimistas do ciberespaço compartilham a visão de que o ciberespaço consiste num domínio
onde se formam comunidades virtuais “espontaneamente” ou emergem por
autodeterminação e
se constituem por indivíduos
que participam por livre vontade em comunicação não-censurada,
caótica e dialógica cruzando fronteiras de disciplinas, culturas
e conceitos cognitivos. Criam novos mundos através e dentro de diferenças e não,
como no conceito moderno de conhecimento e inter-subjetividade, através de um impulso a suplantar ou destruir diferenças. A espontaneidade e o igualitarismo são vistos como capazes de suplantar relações assimétricas construídas
socialmente e comunicação
distorcida que se baseie em raça, sexo, etnia, nacionalidade e classe social.36
Michele
Knobel, por exemplo, segue Manuel Castells ao enfatizar corretamente que a
crescente integração de
texto, imagens e sons num mesmo sistema em interações a partir de múltiplos
pontos, em tempo escolhido ao longo de um rede mundial em condições tidas como de “acesso aberto e disponível” oferece uma mudança fundamental para o caráter da comunicação
humana.37
Knobel acredita, no entanto, que uma boa educação moral que esteja ligada ao desenvolvimento de habilidades
operacionais e críticas
na tradição crítica poderá efetivar a visão freireana de uma pedagogia crítica no ciberespaço.38 No utopismo positivo da tradição da teoria crítica
da Escola de Frankfurt39, a realização do ideal de emancipação é aqui concebido como “arte e como uma forma de
vida”.40
Aqui concebe-se “democracia” dentro de um quadro de uma
futura erotização
possível da existência, em que o “princípio do prazer” e o “princípio da realidade” deixarão de ser alienados para emergir-se num novo “princípio da realidade”.41
Em
outra versão da
teoria crítica — desta vez, uma
“totalmente” pós-moderna
— George Landow compartilha o utopismo positivo de Knobel, Peters, Lankshear,
Muffoletto e outros estudiosos da pedagogia crítica clássica.
Sua versão de um utopismo positivo
torna o ideal de herói poético de Richard Rorty num modelo para a vida no
ciberespaço. Torna-se uma manifestação da “filosofia edificante” ou da “filosofia como
uma maneira de vida”.
“Esta
dissolução textual da centralidade,
que torna o medium tão potencialmente democrático, também o
converte numa sociedade de conversação na qual nenhuma conversa, nenhuma disciplina ou ideologia domina ou
fundamenta as demais. É,
portanto, a realização do
que Richard Rorty denomina “filosofia edificante”, cuja meta é “manter
a conversa em andamento mais do que encontrar a verdade objetiva. É uma forma de filosofia... O hipertexto, que tem
uma propensão
embutida contra a “hipostasia” e, provavelmente, também contra descrições
privilegiadas, incorpora assim a
abordagem da filosofia incentivada por Rorty. A experiência básica
do texto, da informação e
do controle, que transfere o domínio de força do
autor ao leitor, modela um medium pós-moderno
e anti-hierárquico
de informação,
texto, filosofia e sociedade.” 42
Pedagogia crítica, leitura crítica e otimismo no ciberespaço
O entusiasmo de Landow pelo ciberespaço é uma manifestação da relevância
do pensamento moderno no que diz respeito a uma condição pós-moderna
totalizadora. Esta fusão
rearticula o conceito e a prática
da educação. É importanto, acho, ver a figura mais amplamente em termos
conceituais, culturais e sociais. Historicamente, tal reconstrução deveria referir-se à mudança na postura do conhecimento e nas tendências gerais dentro da cultura moderna e nas condições pós-modernas; nestas, teóricos da educação
ligados à teoria crítica neomarxista, pós-moderna “soft” e “hard” e aqueles de orientação funcionalista articulam seu otimismo quanto ao ciberespaço dentro de âmbitos feministas, poscolonialista, multiculturais e outros. Uma
reconstrução histórica deste tipo é importante para a análise dos diferentes tipos de otimismo quanto ao ciberespaço. Também nos auxiliará a contextualizar o tipo especial de otimismo que
vejo na visão de
conceitos não-críticos de educação como o referido pelo presidente norte-americano Bill Clinton:
“Nosso
esforço para unir cada sala de aula
está apenas no começo... Mas não
podemos parar aqui. À
medida que a Internet se torna a nova praça de nossa cidade, um computador em cada lar — mestre de todos os
assuntos, conexão com
todas as culturas — não
mais será um sonho mas uma necessidade. E pela próxima década,
esta será nossa meta.”43
Tal
conceito combina com conceitos gerais dos direitistas: globalização capitalista, mercado livre e novos prospectos
de uma “visão
jeffersoniana” da democracia no ciberespaço. Isto eliminará “o fosso entre os ricos em conhecimentos e os
pobres em conhecimentos”, como evidenciado na Carta Magna dos otimistas do
ciberespaço.44
Como bem demonstra Langdon Winner, o otimismo dos autores da Carta Magna a respeito da democracia no
ciberespaço e da nova organização social que resultarão das atuais mudanças
tecnológicas e econômicas é decepcionante em sua
pretensão de que “o ciberespaço não é do governo: é do povo ”.45
Por
ironia, isto não está muito
longe da visão dos
pensadores críticos
como Mark Poster que reconstroem a história da democracia ocidental como conduzindo da agora grega aos
“moos”* e à Internet como uma
democracia genuina. Com algumas reservas, mas ainda concordando com a concepção corrente de outros pensadores críticos da educação, Poster fala bem parecido com Clinton a respeito do ciberespaço como uma democracia radical com fundamento na
condição pós-moderna. “Agora novos
grupos da Internet, jogos moos e outras comunidades virtuais são promovidas como esferas públicas emergentes que renovarão a democracia no século
XXI.”46
Poster conclui que a visão
democrática da teoria crítica do tipo habermasiana já
é
irrelevante hoje; não há mais
espaço para a esfera pública onde cidadãos racionais e autônomos
formulem e reformulem o bem comum. A questão democrática
deve levar em conta não
apenas novos modos eletrônicos
de discurso; tem também que
reformular o “assunto”.47
Técnicas como a realidade virtual, os modos de
comunicação e de inter-subjetividade
medida por computadores, como os “muds” e os “moos” permitem e encorajam
ciberutópicos de orientação funcionalista ou pós-moderna numa linha que vai
de Bill Clinton até
Donna Haraway e Douglas Kellner. Não estou dizendo que os autores da direitista Carta Magna e Poster ou
Kellner tenham a mesmo postura, no entanto, mantêm idêntico
otimismo. O fato de os pensadores críticos não
conseguirem traçar
uma linha divisória
que os separe dos otimistas de direita deve ser estar claro em nossas mentes.
Mostra bem a importância
de se compreender a postura da tecnologia per se e, em especial das atuais tecnologias
de comunicação,48
as mudanças sociais e as atuais
possibilidades e limitações
culturais. Não se
trata apenas de possibilidades teóricas: como prova do que afirmo, trata-se de assunto de urgência real, uma ação que deve ser tomada para realizar a nossa presente responsabilidade
e potencial.
A
questão do ciberespaço e a posição problemática
da pedagogia crítica,
da leitura crítica
e dos pensadores críticos
da educação em geral esclarecem a atual
demolição das divisões ideológicas tradicionais, tendências filosóficas
e políticas, possibilidades e
limitações educativas. Refletem a
corrente degeneração do
conceito.49 No ciberespaço, o conceito é domesticado pelo domínio da auto-evidência
e suas práticas e reintroduzido como
parte da “realidade” da qual se exila o eros crítico.
Como uma arena simbólica
totalizadora, o ciberespaço
desempenha um papel especial aqui e coloca questões que devem ser encaminhadas. Estas referem-se ao presente e ao
futuro do conceito e da temática
humana, o desejo de compreender e as possibilidades de desafiar o que se mostra
evidente por si mesmo, ao mesmo
tempo em que abandona o apelo pelo “totalmente outro”. Neste quadro, deveria
questionar a postura do conhecimento e as possibilidades que ainda se abrem à
inter-subjetividade dialógica
dentro de um sistema governado pela nova tecnologia, capitalismo globalizante e
nova organização
social. É errado separar a pedagogia
crítica, a leitura crítica ou a educação crítica
e o ciberespaço das
questões da globalização capitalista. Igualmente errado, segundo penso, é
deixarmos de reformular a questão do que é a educação hoje e de quais são as
possibilidades atuais para uma filosofia da educação crítica
dentro desse contexto.
Visão alternativa do ciberespaço e
educação crítica
Não é de se
admirar que pensadores críticos
como Landow, que vêem
seu conceito de hipertexto e de comunicação como efetivação do
pensamento de Roland Barthes, Michel Foucault Jacques Derrida50 e outros pós-modernistas “hard”, não enfrentar o otimismo do ciberespaço com uma reconstrução crítica do capitalismo globalizante, com suas tecnologias, e a indústria cultural, que reflete e realça a continuidade do desenvolvimento deste modo de
produção. É mais difícil,
no entanto, explicar o otimismo dos pós-modernistas “soft” neste tema. Os pensadores crítico pós-modernos
“soft” geralmente indicam os prospectos de se ultrapassar a marginalização dos grupos e classes culturais, sexuais e
etnicos, reforçando
sua autocolocação
potencial e sua “voz”, abrindo novas possibilidades de diálogo entre diferenças,
rearticulação
cultural e democracia radical.
A
dificuldade que vejo na posição dos
pós-modernistas “soft” que
saudam as novas possibilidades educativas no ciberespaço vai ainda mais longe. Diz respeito às questões da
democracia e das possibilidades críticas e emancipatórias.
Abrange também as
verdadeiras possibilidades de decisões significativas e de responsabilidade no ciberespaço. Em tais assuntos, deveria separar as posturas
dos otimistas do ciberespaço pós-modernos “hard” e “soft”. Se limitarmos nossa
reflexão aos otimistas pós-modernos “soft” poderemos levantar algumas
questões.
Defendo
que, em vários graus e maneiras, a
influência da pós-modernidade e a força sugestiva da ordem capitalista acabou por dissolver o eros
revolucionário
ou transcendental nesses pensadores críticos e domesticou os modos e objetivos de sua educação crítica. No ciberotimismo, o pensamento dialético é tomado pela fé no paralogismo interno ao
sistema. Aqui não
pode haver espaço
para o sujeito e para o diálogo
transformador. Em contraste com a pedagogia tradicional, o conceito pós-moderno de paralogismo e contingência não pode ir além da
possibilidade de mudança em
direção à Utopia Esclarecida de
emancipação. Se tenho razão, então esses pensadores críticos seguem pós-modernos
como Lyotard, que põem
suas esperanças no
paralogismo incontrolado do sistema capitalista e estão à beira de rompimento com o objetivo central da
pedagogia crítica.
De acordo com Lyotard,
“A
informatização da
sociedade ... poderia tornar-se o
instrumento sonhado para controlar e regular o sistema de mercado, com inclusão do próprio saber, que seria
dirigido exclusivamente pelo princípio do desempenho... Mas poderia também auxiliar grupos de discussão dos metapreceitos suplementando-os com a informação de que geralmente carecem para tomar decisões fundamentadas.” 51
Acho
que a adoção do paralogismo pós-moderno e dos jogos de linguagem52
não pode ser inserido no
projeto crítico
da teoria crítica
e da pedagogia crítica
sem um sério trabalho filosófico. Este trabalho ainda tem que ser feito pelos
pensadores críticos
que adotaram atitudes pós-modernas
em sua pedagogia crítica.
Mesmo que tomassem essa atitude, restaria saber até que ponto ainda poderia ser
considerado uma pedagogia crítica
ou mesmo uma educação crítica mesmo.
A
explicação histórica deve ser atualizada dentro de uma reconstrução que mostre a transferência da ênfase
e desenvolvimento das implicações educativas, por um lado,
dos últimos
escritos da teoria crítica
de Adorno e Horkheimer e, por outro lado, do tipo de pedagogia crítica de Paulo Freire; o mesmo procedimento deve
ser tomado quanto a pedagogia crítica pós-moderna
de Giroux e a chamada pedagogia crítica de contrabando, de McLaren. E, no bastidor, é importante mencionar os pensadores da pedagogia pós-crítica ou da não-crítica, como, de um lado, Burbules e Ellsworth e,
do outro lado, Masschelein e Biesta, cada um trilhando caminhos educacionais próprios.
Estes defendem as possibilidades da crítica como central a uma educação atual crítica
via o pós-moderno “soft” e os discursos
feministas e pragmaticos, enquanto aqueles se referem a uma filosofia
revisitada mesmo que relacionada com os discursos pós-modernos, onde se sente mais em casa com a problemática posta pelo pós-modernismo “hard”. Contra este fundo, apresento a contra-educação, que aprofundarei quanto às suas implicações
para o utopismo positivo dos adoradores críticos da electrópolis.
Peter
McLaren ocupa uma posição
especial no sentido de que não
abandonou a proposta da tradição crítica
de uma revolução,
mas reconhece as realidades da sociedade pós-moderna e da globalização capitalista. Com os fundamentos do princípio “esperança” de
Bloch, reintroduz “Che” como um exemplo modelar do educador crítico ético.53 O otimismo de McLaren não é posto em questão mesmo quando conclui a respeito do avanço do capitalismo global:
“como
as economias simbólicas
continuam a proliferar externamente a um monolítico relacionamento casual com o capital, criando uma variedade maior
de posições do sujeito a assumir, as
possibilidades também
cresceram para ... formas globais de culturas travestidas.”54
Apoiando-se
na reconstrução de
Frederick Jameson da “descentralização global e da instituição do microgrupo”55 , McLaren, como tantos outros pensadores críticos da educação, também tem
dificuldade em justificar seu otimismo pela Internet. Seus problemas dizem respeito a fundar com segurança a esperança pelo novo proletariado internacional futuro e pela revolução numa realidade pós-moderna.
“Temos
sido exilados a uma hiper-realidade pós-humana — numa condição cujas dimensões
deixamos de reconhecer e que são temíveis
a uma plena compreensão. ..
Para mim, a era pós-moderna
é aquela em que a democracia torna-se historicamente subvertida
pelo capitalismo numa extensão
jamais existente, onde os valores tornam-se um efeito especial e radicalmente
incomensurável.”56
Enquanto
descreve a maneira como o capitalismo global está conquistando a cultura
local, considera a alteridade de outras culturas dentro desse processo de
globalização como uma parte “autêntica” do ciberespaço.
“Creio
mesmo que vivemos numa sociedade agora que está baseada na administração e articulação de disposições.
Mas precisamos lembrar que nosso investimento afetivo nos objetos materiais ou
fetiches de consumidores está ligado às relações de
produção e à política de consumo que precisa ser específica do ponto de vista geopolítico e de contextualização. Não
mais vivemos numa sociedade de objetivos, numa sociedade orientada a objetivos.
Acho que tal tipo de sociedade esteve ligada predominantemente a uma sociedade
orientada à imprensa e presa ao capitalismo industrial por
maneiras específicas.”57
Contudo,
McLaren não abandona o projeto
emancipatório da pedagogia crítica, sem a rearticulação sobre as quais insistem
Lankshear, Peters e Knobel. 58 A pedagogia crítica, em sua opinião,
pode, afinal de contas, ser implementada no ciberespaço e desafiar a ordem vigente.59 Mas em sua própria reconstrução, não encontro justificativa contextual para isto. Só posso entender seu otimismo como manifestação do princípio esperança, que explicitamente toma do utopismo teológico de Ernst Bloch. Este tipo de esperança pertence à modernidade, é transcendental
e religioso.
É
concebido como “metafísico”
e irrelevante pelos escritores pós-modernos que ele gosta de ler, é deixado de lado pela
maioria dos otimistas do ciberespaço críticos
e firma uma tensão
entre seu projeto e o de Henry Giroux que são freqüentemente tomados como um único e mesmo projeto.
Se
o ciberespaço é
fundamentalmente uma simples parte do sistema pós-moderno que não
contém qualquer transcendência e se, como manifestação do capitalismo acelerado, não traz qualquer revolução ou mudança
essencial do sistema, então
pergunto como compreender esses
otimistas críticos
e a afinidade da esperança de
liberdade, igualdade e democracia deles com o tipo de esperança dos otimistas de direita ?
Central
ao capitalismo global são sua
flexibilidade em contraste com o “fordismo”61 e o desaparecimento do
mercado físico, o que põe em questão a identificação da
mercadoria com sua representação e da economia com a cultura. Como demonstra Frederick Jameson, aqui
está o processo dentro do qual a
recepção do processo de consumo é vital
para a “hollywoodização” da
realidade, que evidencia a lógica
cultural do atual capitalismo.62 Essa flexibilidade pós-fordista é requerida em todos os níveis e arenas da vida — desde o fluxo das finanças até a produção e consumo de mercadorias, identidades e conhecimento (que se
transforma em informação) e
até em escolas.63 Tecnologias de informação eletrônica
são vitais nesse processo em
termos não só de velocidade mas também de diversidade e flexibilidade numa modalidade
em que ninguém
pode participar — independentemente de classe, sexo, etnia, raça, incapacidade e idade — como
consumidor-produtor efetivo no mercado capitalista: apenas assim e, certamente,
não como sujeito efetuando sua
autonomia potencial ou sua alteridade. O tipo especial de diversidade (de
mercadorias e de reificados conhecimentos, identidades e paixão) que é vital para o capitalismo
global não é negado mas fertilizado pela
unidimensionalidade representada pela lógica da atual tecnologia. Eis um fenômeno que torna irrelevantes tanto a distância quanto a superfície e privilegia o lapso de tempo. E, por outro lado, encontramos o
tempo global, que pertence à multimídia, ao ciberespaço,
crescentemente dominando o quadro temporal de nossas cidades e vizinhanças. Pode-se falar como Paul Virilio do “global”
como parcela de um processo em que “o local por definição torna-se global e o global, local”.64 Aqui a racionalidade instrumental não tem o desafio da tradição da razão
objetiva, ao contrário
do que sempre ocorreu na história da cultura ocidental.65
O triunfo da racionalidade instrumental resulta na mercantização do conhecimento, dos discursos e das relações humanas dentro de uma cultura global que
estimula o folclore da
“diversidade” (às
custas das culturas tradicionais, que assim se dissolvem), localidade e cultura popular. Realiza
isso através de
um processo de nivelamento “democrático” que tudo tritura em caquinhos de mesmice. Este processo abrange
a criação, estocagem, seleção, distribuição e consumo de informação, paixões e
reações, desconsiderando
fronteiras nacionais, interesses coletivos, censuras, transcendências ou privilégios, tudo que seja
problemático para a formalização ou digitação econômica
ou matemática66
e que resista ao ingresso no cibespaço sob suas condições.
Considerar
isoladamente as tendências
“democráticas” de “voz”, de símbolos descentrados e paixões flutuantes no ciberespaço, bem como o tipo de “democracia radical” que Mark Poster e Kellner
visualizam no ciberespaço e não relacionar tudo isso com o atual estágio de desenvolvimento do capitalismo é um grande erro. Penso que o
ciberespaço e o processo de globalização do capitalismo são inseparáveis.
Tanto como tendência
econômica quanto como uma lógica, um mundo de paixões, esperanças e
coexistência humana narcisista onde não há qualquer espaço para o “totalmente outro” do que a ordem presente,67
nem, com certeza, para a alteridade do Outro.68
Ao mesmo tempo e como parte da atual indústria cultural, há mais necessidade de louvar o “livre vontade”, a
subjetividade, o relativismo, a diversidade, a democracia, a fluidez, o prazer
e o pensamento crítico
— desde que seja parte e parcela da mesma ordem desumanizante. Esta opinião é sustentada também por Gilles Deleuze e por Felix Guattari, que estão entre os mais influentes pensadores pós-modernos que marcaram as obras dos educadores
críticos de hoje. Na esteira de
tais pensadores, mesmo de um ponto de vista pós-moderno, não
existe espaço
para esse tipo de otimismo atual que a maioria dos críticos (pós-modernos)
tem relativo à Internet. Deleuze e Guattari sustentam que na
idade pós-moderna a filosofia como
pensamento contextual crítico
está em sua posição
mais problemática
da história da cultura ocidental:
“Finalmente, o momento mais vergonhoso
aconteceu quando a ciência
da informática, o marketing, o design
e a propaganda, todas elas disciplinas da comunicação, tomaram posse da própria palavra conceito
e disseram: ‘Eis nossa competência, nós é que somos criativos, os homens que pensam !
Somos amigos do conceito, nós o inserimos em nossos computadores’. Informação e criatividade, conceito e empresa: já temos
uma bibliografia abundante. O marketing preservou a idéia de certa relação entre o conceito e o evento. Aqui o conceito tornou-se o conjunto de
apresentação de produtos ... e o evento
tornou-se a exposição que
monta várias apresentações e a
‘troca de idéias’ que se supõe deva provocar. Os únicos eventos são
exibições e os únicos conceitos são os
produtos que podem ser vendidos.”69
O
capitalismo globalizador só pode acontecer num mundo pós-moderno, mas a condição para reprodução das
condições pós-modernas e de sua indústria cultural envolve a reprodução de condições
modernas e pré-modernas em suas beiradas: a produção mais eficiente de software não pode evitar os modos de produção da modernidade e da pré-modernidade para aqueles
que foram excluídos
para as margens. Todos participam do capitalismo global, mas com certeza nem
todos participam do modo de produção e distribuição pós-modernos. A diferenciação de modos de produção
coloca em confronto e recria diferentes relações de produção e
uma opressora organização
social em escala global. Não que
as classes sociais se tornem categoria ultrapassada ou alienação irrelevante. Tornam-se mais sofisticadas,
internalizadas e veladas no centro da afluência capitalista ou mais agudas nas periferias do Ocidente e do
Terceiro Mundo. Simultaneamente exacerbam a lógica da opressão e
consumo disseminando-a por seus mitos, tecnologias e mercadorias como processo
global tanto no consciente como no emocional de suas vítimas ou agentes.
Para
mim, o ciberespaço só pode
mesmo reproduzir a lógica
do sistema unidimensional que se tornou totalmente racional e no qual toda dialética, alienação e discordância
são conquistadas, digeridas ou
destruídas. Em seu centro, as relações de força são
disfarçadas, pois tudo se torna visível, externalizado, aberto e “livre” para todos
os parceiros competentes. Todos os
sinais distintivos tornam-se iguais a si mesmos e fica impossível negá-los num terreno totalmente
racional destituído de
história, eros ou traços da alteridade; sem mistério ou transcendência
— e, portanto, sem significado. De acordo com Paul Virilio,
“o
que se tem é um distúrbio na percepção do
que é a realidade: é um choque, uma concussão mental ... nunca progride numa técnica que foi atingida sem dirigir-se a seus aspectos especificamente
negativos. O que há de negativo nessas supervias de informação é exatamente esta perda de orientação quanto à alteridade (o outro), este
distúrbio na relação com o outro e com o mundo. É óbvio que esta perda de
orientação , essa não-situação, abortará numa crise profunda que vai afetar a sociedade
e, portanto, a democracia.”70
No
interior do ciberespaço,
com tecnologias de realidade virtual, a Internet, os “moos” e assemelhados
reproduzem um certo tipo de representação — na qual só há espaço para diversidade, contingência, temporalidade, fluidez, hibridez e espetáculo “horizontais”— que
prosperam enquanto apóiam
com eficiência a ulterior produtivização do sistema. Como tal, o ciberespaço rivaliza com todas tentativas tradicionais de
eternizar, mistificar ou desmistificar a realidade e permite um novo tipo de
educação modeladora. Para nós, eis aqui a educação modeladora mais avançadamente niilista que já ameaçou a humanidade.
Dentro
do ciberespaço a
produção de mitos e o controle da
informação, identidade e consciência estão sendo transferidos da hegemonia de instituições ideológicas
— como o Estado, o partido e outras — para outras forças mais sofisticadas , que são menos visíveis,
menos abertas à crítica e a resistência. 71
A lógica do controle, eficiência e produtividade se faz presente no ciberespaço mesmo quando se afasta explicitamente do texto discursivo, linear e
competente para favorecer uma arena digital metafórica “pré-textual” constituída por livre jogo de ícones, intuições,
elos retóricos e espetáculo.72 A educação modeladora não
desaparece; apenas se torna mais sofisticada, produtiva e efetiva e menos
transparente à medida que a necessidade do sistema
internacional exija uma sofisticação cada vez mais acentuada e capacidade de reflexão e de flexibilidade cada vez mais controlada e avançada — características funcionais para a reprodução capitalista e o progresso tecnológico. A opressão
aqui dispensa o opressor. É
internalizada e representada por suas próprias vítimas
como agentes entusiasmadíssimos
do sistema. A alta modernidade precisava mesmo de uma indústria cultural em que os passivos consumidores fossem realmente
manipulados. A condição pós-moderna precisava da iniciativa, criatividade,
flexibilidade e potencial crítico
dos consumidores, que se tornam produtores eficientes e criativos dentro do
sistema.
Os
pensadores críticos
da educação que estão alertas contra “os perigos” dentro do ciberespaço e pedem uma educação para o pensamento crítico, leitura crítica
e atividades afins, deveriam, em minha opinião, contextualizar essas esperanças diante da atual indústria cultural e de seus aparelhos educativos modeladores. Mas, ao
mesmo tempo, também
deveriam fazer as perguntas básicas: qual é a postura quanto à questão humana? Quais as atuais
condições para que esse combate
realize seu potencial dialógico,
sua autonomia potencial ou autocriação — ou, ainda, o fundamento para a falta de significado do conceito de autonomia potencial dos
homens? Qual a tomada de posição do saber sob tais condições e será que existe algum espaço, hoje, para a busca do diálogo? Sob tais condições, é possível que o sujeito entre em diálogo ou faça uma
real reflexão?
Existem momentos de negatividade que venham a decifrar sinais ontológicos e colocar em cheque a mesmice reinante? Há espaço para a
transcendência
no ciberespaço e
para um esforço do
sujeito em ser algo mais do que um mero objeto ou sujeito desumanizado ? E se a
resposta para algumas dessas questões ou para todas for negativa, no que isso implicaria para nós seres humanos?
Educação modeladora, sujeito e ciberespaço
Afirmo que o objetivo da educação é a modelagem dos seres humanos e o nivelamento de
todos a meras coisas. Trata-se de um processo violento, pelo qual se expulsa a
alteridade do sujeito, permitindo que funcione como agente do sistema, como algo
e não como alguém. Nessa condição, supõe-se
que o sujeito seja produtivo em reproduzir a vigente ordem das coisas e o domínio hegemônico de auto-evidência.
Quanto mais eficiente é a educação modeladora hegemônica,
tanto mais apaixonadamente as pessoas se agarram às algemas que as impedem de ser o que poderiam vir a ser e tanto mais
efetivamente se vela o mecanismo que as constituiu como agentes do sistema.73
O objetivo da educação
modeladora é fazer o sujeito olvidar-se de um “totalmente
outro” que não
seja a presente ordem e seu potencial humano irrealizado. A meta não são as pessoas propriamente como “outros”, mas o “outro” sistema de que
elas se tornaram agentes,
servidores e adoradores. Tradicionalmente a educação modeladora destinava-se à colonização “interna” e “externa”, de modo que o Outro lhe
era de vital importância:
o “sujeito” é usado pelo sistema dentro
de uma estrutura etnocêntrica
para combates contra outros
“sujeitos” e sistemas e
contra a alteridade do “sujeito”.
O saber, a identidade, as paixões, a função social e a produtividade do sujeito têm que garantir a reprodução bem sucedida do sistema e suas vitórias sobre oposições
internas e externas. No entanto, também tem que garantir rivais
equipados com suas agendas próprias a bem da “educação”, “salvação” ou
“destruição” eficientes de seus Outros.
A violência simbólica conquista ou cria os centros de relações de força e dinâmica
para possibilitar a violência
direta nas formas ecológicas,
econômicas, militares e outras.
Assegurada a vitória,
torna-se possível a
orquestração da estrutura emocional,
paixões, aparatos conceituais,
consciência e funcionamento social
do sujeito modelado que, como tal, na verdade nunca é um sujeito.74
O saber moral e sua relação com
conceitos cognitivos são
elementos vitais dentro deste tipo de violência, que é a essência da educação75 como subjetivação. Seres humanos modelados, na verdade, realizam a morte do sujeito,
no sentido de que, privados de sua alteridade, são sempre substituíveis.
Estes
breves comentários
sobre a essência
da educação modeladora estão articulados a partir de uma perspectiva de
contra-educação,
que implica numa negação
filosófica, existencial e política da educação modeladora. Ao contrário da pedagogia crítica
e de outras versões da
educação crítica, a contra-educação não tem
uma utopia positiva.76 Insiste, no entanto, na possibilidade de uma
luta pela autoconstituição
dialógica e responsabilidade moral
para a alteridade do Outro e do combate do sujeito para suplantar o que se
tornou quando constituído
pela educação
modeladora.77
Para
nós, o ciberespaço é um ambiente pós-moderno prima facie.
Isto determina as possibilidades e limitações do sujeito, mesmo se, ao mesmo tempo, possa inserir-se em contextos
modernos e até em contextos pré-modernos que atravessam o
ciberespaço. Como é típico dos otimistas do ciberespaço, Landow põe uma
longa citação de
Foucault na abertura de seu livro e Lankshear, Peters e Knobel começam seu artigo citando Haraway que diz “vivemos
num movimento que vai da indústria
orgânica para um sistema
informacional polimórfico
— do trabalho de todos para o jogo de todos, um jogo mortal.”78
Haraway, representante dos pensadores críticos que se espantam com o discurso pós-moderno “hard”, é bem explícito no tema do assunto pós-moderno, o cyborg: “um ciborg é um organismo cibernético, híbrido de máquina
e organismo, uma criatura tanto da realidade social quanto da ficção”.79 Os antimetafísicos, antifundamentalistas, essencialistas, universalistas e
transcendentalistas da “hard” pós-modernidade desse tipo manifesta-se, também, no pensamento dos críticos que se vêem
integrantes da pedagogia crítica.
Tentam divulgá-la
ao ciberespaço
como arena para a emancipação que
a teoria crítica
da Escola de Frankfurt e a pedagogia crítica de Paulo Freire procurou em vão na condição
socio-econômica,
cultural e tecnológica
da modernidade. De acordo com Lankshear, Peters e Knobel “o ciberespaço põe em
questão a estabilidade e a coerência do livro e das formas de narração estimuladas por ele. Mas, igualmente, recorre
exatamente a eles mesmos, relacionando-os ao sujeito”.80
Juntamente com Haraway, Saarinen e outros,81 celebram o “buraco-sem-fundo”82 que torna possível a convergência
da máquina e do sujeito em
“sujeitos mutantes” e a “fluidez de identidade no ciberespaço”83 que, ao lado de outras condições do ciberespaço, eventualmente permitirão a realização bem
sucedida do projeto emancipatório da pedagogia crítica.
As
influências pós-modernas “soft” tais como aquelas articuladas no pensamento crítico de Burbules e Rice (e com certeza em
Kellner, que ainda trabalha dentro do quadro teórico da modernidade) rejeitam o total da mera contingência, hibridez e fluidez de informações, paixões, identidades e relações e indicam a ameaça que
tudo isso representa à educação crítica.84
Ao mesmo tempo, Burbules identifica grandes possibilidades para o florescer do
sujeito crítico
dentro do ciberespaço”85
Considero que neste tema do sujeito, a reconstrução dos pós-modernistas
“hard” entre os pensadores críticos da educação
descreve muito melhor a situação do sujeito do que aquela oferecida pelos pós-modernistas “soft” como Burbules and Rice. No entanto, não posso participar de tal celebração.
A
modelagem no ciberespaço,
defendo, é diferente da reprodução da metafísica
ocidental tradicional e suas grandes narrativas por grandes escritores. O domínio pós-moderno da auto-evidência não
precisa que escritores e interprétes da verdade textual o legitimem. Tradicionalmente prosperaram na
religião, filosofia, arte, ciência e tecnologia tanto na família, quanto na igreja, na escola, no exército, nas prisões e em outros locais de modelagem e disciplina onde a “verdade” ou os
valores corretos ou padrões
sejam revelados, transferidos e internalizados.
A
concepção de razão universal do Esclarecimento e o potencial humano para a autonomia,
diálogo e emancipação tornaram possível o compromisso com a igualdade e dignidade no seio das diferenças.86 Neste quadro, onde o Espírito e a tradição da razão
objetiva eram o fator dominante ao lado da racionalidade instrumental, houve
espaço não apenas para a eficiente violência educacional da modernidade, mas também para a realização
arrogante da verdade, justiça,
beleza e felicidade. Como prova do que afirmo, houve também um potencial para a contra-educação, como prática
crítica do Eu ético que, frente ao irrespondível, confrontado pela abertura, insignificância e infinidade, luta pelo diálogo, reflexão e transcendência.
Houve espaço
também para a alternativa de
orientação existencialista, e até para o
niilismo e pessimismo, como posições filosóficas
sérias que tomaram consciência da responsabilidade do sujeito humano e ativaram o potencial por decisões significativas e de autocriação mesmo quando isto significasse suicídio para as maiores manifestações de soberania.87 Aqui o Eu ético assume a responsabilidade pela alteridade do Outro e o ser humano
é efetivado como outro e não como ser. Somente assim, diz Levinas, o Eu é insubstituível.88
Na
pós-modernidade, onde a
racionalidade instrumental domina, torna-se bem problemática a possibilidade de lutar pela autonomia, autocriação e diálogo, e até mesmo para fazer uma escolha genuína entre as diferenças. Em “A ética
da autenticidade” Taylor pergunta: “Pode um modo de vida centrado no self* , num sentido que significa tratar
nossos pares como meramente instrumentais, justificar-se à luz do ideal de
autenticidade?” Responde que, no âmbito social — ao qual entendo que o ciberespaço pertence na condição pós-moderna — a resposta é claramente sim”.89
Mas podemos ver as relações
humanas como instrumentais a nosso desempenho e, assim, como fundamentalmente
experimental? “Aqui a resposta é mais fácil. Com certeza, não, se
também constituem nossa
identidade”, diz Taylor.90 Enquanto o sujeito está privado de sua alteridade e
abandona o suplantar erótico
da diversidade que lhe é dada como mesmice, o “sujeito” é
portador de identidades fluidas e substituível por alguns dos demais “sujeitos”. Como tal, não lhe resta opção de
julgamento ou de decisão maior do que um capricho “criativo” ou
uma reflexão de
sugestiva força
efetiva do sistema; nem mesmo pode ser responsabilizado pela realização de sua negligenciada humanidade.
Deste
ponto de vista, as possibilidades do “sujeito” pós-moderno no ciberespaço em criar comunidades descentradas e não-censuradas e diálogos
com outros,91 e para escolher livremente informação, estratégias críticas
e inovadoras, fins e identidades parecem muito duvidosas. É por isso que tanto os pós-modernistas “hard” quanto os “soft” defendem que no ciberespaço os “sujeitos” são constituídos
dentro de uma esfera que está isenta de remédios modernos e pré-modernos como mistério, eros,
significado, responsabilidade e fins. O jogo não-instrumental, pragmático ou “estético”
não pode ser isolado da
auto-evidência metafísica, da hierarquia de valores, das narrativas e
do saber que têm
sido demolidos na condição pós-moderna. A metafísica como violência é um
imperativo a fim de destruir ou recolocar a violência (visível)
e a educação modeladora. É um elemento constitutivo em alienação
que é desafiado pelo Eu ético ou pela busca utópica que transcende a mesmice e a auto-evidência. Como vimos, mesmo para os críticos pós-modernos
a celebração se dá
em relação a
uma alegada emancipação da
tirania das pretensões
metafísicas de “essência humana” , “autenticidade”, “fins dignos”, “compromissos morais” e
“carências humanas”. Apenas assim,
aprisionados em “suas” narrativas, ficam estes críticos “livres para escolher o que lhes aprouver”
no ciberespaço —
se abandonam a metafísica
da presença. Como demonstração, veja-se que se requer que abandonem a
alteridade e a responsabilidade para com o Outro e o “ainda-não”, bem como que se esqueçam da abertura ao ser.
Este
tipo de emancipação da
metafísica promete conduzi-la
agradavelmente a uma abertura quantitativa e enganadora e a uma infinidade
falsa e sem sentido. Como parte da mesmice produtiva e infinda, o sujeito
torna-se totalmente identificado com significantes de um sistema
anti-essencialista; não um
criador de conceitos, significante e significado, mas um mero agente e uma
sombra do movimento de significantes num simulacro infinito, que tem infindas
manifestações de nada. Torna-se um
elemento na mesmice a que Sócrates,
Kierkegaard, Nietzsche e Levinas ofereceram admirável resistência.
Creio
que, sob tais condições,
uma “livre decisão” de
adquirir certa identidade, certa maneira de viver ou de saber manifesta o
sucesso da desumanização do
sujeito. Em tal dinâmica,
o “sujeito” não
pode lutar para atingir seus potenciais de autonomia. Nem mesmo há espaço para tal conceito como idéia reguladora. Na verdade, não há mais espaço para lutar pela vida humana que não seja uma simples força que se retém a si mesma.
Em
outras palavras, em tal arena o sujeito não pode ser outro do que é construído para ser, mesmo como “sujeito” indefinido, instável, fluido. Não
pode relacionar-se com o “totalmente outro” em si mesmo e no Outro, e não pode lutar para superar-se, transcender a
auto-evidência, e mudar a presente
ordem das coisas. No ciberespaço, abandonar a negação dos
fatos correntes e a busca de realização do “ainda-não” ou
do eixo utópico
são imperativos da lógica interna do sistema. O mundo pós-metafísico
não abandona o conceito: ele o
reintroduz como paixões,
como impulsos. Como parte e parcela do sistema pós-moderno, estes são
anti-eróticos: demandam o abandono do
Espírito crítico e do diálogo
como maneira de vida. Mantêm,
mas como irrelevante, o diálogo
como luta do sujeito humano para ser alguém, um Eu ético relacionado à eternidade e totalmente
responsável para a alteridade92
e não para manter a ordem das
coisas.
Burbules
se esforça em provar que, mesmo na Internet, há espaço para a leitura crítica no sentido de que o sujeito que se vê diante de um texto e de
conexões (links) pré-construídas pode criticamente reconstruir a ideologia
oculta, as manipulações
comerciais e outras características
que aí estejam atuantes. Enquanto reconhece os problemas e os perigos
da Internet, podemos, ele argumenta, pragmaticamente educar para sensibilidades
e virtudes comunicativas (não
apenas habilidades críticas)
e para leituras críticas
na Internet.93 Mas mesmo essa versão mais reflexiva do otimismo pelo ciberespaço não
questiona a existência
real de um sujeito no ciberespaço. Nem justifica, de fato, a possibilidade de padrões não-manipuladores ou não-caprichosos, idéias
ou paixões que vão regular ou tornar possível essa avaliação crítica ou esse processo de crítica da ideologia.
Na
ausência de uma perspectiva ou
distância crítica, mesmo que ideal , podemos questionar o que pode me garantir,
dentro desse quadro, que a prática crítica
não será
mero reflexo da força de
sugestão ou lógica do sistema que supomos criticar? De um ponto de vista da
contra-educação,
enquanto não
houver espaço
para a transcendência,
a reflexão é impossível e, portanto, o sujeito se torna um “sujeito”. Para o Eu ético, a reflexão é uma questão de vida ou morte pela dimensão humanista que permite elementos negativos e positivos no combate
ideológico, na luta de sua
subjetividade. Os otimistas do ciberespaço representam características gerais da educação como modelagem e não abrem as portas para a contra-educação e para a reflexão no
ciberespaço.
Se a educação aparece como membro modelado no ciberespaço, a impossibilidade de escapar dessa modelagem na Internet estabelece
que as relações
dialógicas em seu interior também serão impossíveis.
A ausência da alteridade do Outro
assegura a futilidade do esforço em dar força aos
grupos marginalizados e em dar-lhes um espaço para que ergam suas “vozes”
silentes. Se chegar a ser ouvida será no âmbito capitalista da unidimensionalidade e estará dominada pela lógica do sistema que eliminará ou, pelo menos, colocará em
risco sua especificidade.
O
diálogo, sustento, é impossível sem um eixo utópico,
sem uma ética comum e esforço político de transcender a realidade dada. O diálogo é um tipo especial de relação humana em que a alteridade do Outro é reconhecida
pelo Eu ético não
apenas como relevante e legítima,
mas também como condição na luta pela própria tomada de posição. O ciberespaço por ser um espaço
antitranscendental, contingente e anti-essencialista impossibilita o desejo
pelo bem, a negação da
produção do auto-evidente ou o
desvelar da mentira como compromisso moral. Na realidade virtual, na Internet ou nos seus
dispositivos, os aparatos hegemônicos ou autocompreendidos e sua lógica oculta criam a “verdade” ou a “informação relevante” contingente e as paixões reinantes que ficam inquestionadas pois não há posição transcendental, necessária ou significativa ou
ideal que questione aqueles e sua lógica interna. Tornou-se impossível esforçar-se
pela desmistificaçào do
mundo e para resistir à desumanização dos indivíduos
e das comunidades virtuais. Até mesmo a negaçào dos
falsos protestos pela relevância,
validade ou normalidade tornam-se impossíveis onde só há informação, identidades e relações meramente contingentes e fluidas como um “jogo livre” que serve
ao “mercado livre” e ao
desordenado avanço
tecnológico.
O
elemento constituinte do ciberespaço é a mesmice, que se camufla como diversidade
infinita, “diferença”e
contingência. Não há espaço para diálogo
quando o sistema simula manifestar total abertura e, assim, o fim da alienação e opressão; daí que a luta contra a opressão ou a busca de transcendência, pelo “totalmente outro”
ou pelo “não-ainda” apareçam como ingênuas,
obsoletas ou até opressoras. No entanto, a “abertura” e a
“liberdade de escolha” ou a autoconstituição, que o ciberespaço
finge realizar, atualizam um infinito que é totalmente diferente
daquele a que se referiam
Kierkegaard, Rosenzweig, Adorno ou Levinas: é uma abertura que contém um infinito quantitativo, não um infinito qualitativo. Nela, a mesmice veste
as roupas da abertura à “diferença” — mas só enquanto parte e parcela do sistema e de sua lógica interna. A lógica antagônica
não tem acesso ao sistema se não estiver interpretada e transformada de acordo
com os requisitos e papéis
desse sistema totalizador. Não há espaço para a alteridade do Outro e para o infinito
afluente desta alteridade que Levinas assinala na “face” do “Outro”.94 O ciberespaço como uma máquina
do prazer garante a impossibilidade da busca erótica pelo diálogo,
pois a Utopia já foi alcançada e efetivada. Agora somos convidados apenas a consumir seus
prazeres e empurrar sua efetivação nas fronteiras infinitas da mesmice.
O
diálogo é o campo em que a luta pela
reflexão como possibilidade aberta
pode acontecer. Dentro dele, a alteridade do Outro — “interno” ou “externo” —
como uma reflexão do
infinito e abertura ao ser permite
a realização da transcendência no exato momento. A Utopia negativa como uma
busca positiva combate em circunstâncias concretas e abre a possibilidade de um momento especial de
intersubjetividade não-violenta.
Essa intersubjetividade não-violenta
envolve reconhecer a diferença, a
diferença total e, portanto, é um
combate, não uma
celebração de machos brancos,
racionais e de classes dominantes como é usualmente concebida no
Esclarecimento tradicional. Eis porque a contra-educação só pode atuar dentro dos horizontes de um diálogo.
Uma
das manifestações centrais
da contra-educação é a
reflexão. A reflexão é uma qualidade do Eu ético relativo a outro sujeito como alguém, não
como um objeto de manipulação, não como alguém cuja alteridade tem que ser destruída. Dentro do diálogo,
os compromissos morais do sujeito antecedem a razão e suas potencialidades cognitivas. O sujeito luta para se
rearticular como parte da elevação do Outro como manifestação do “totalmente outro”. Ao assim fazer, o parceiro do diálogo contribui para o esforço de mudar o contexto do diálogo de tal modo que eleve as potencialidades do diálogo que somos.
Como
parte da intesubjetividade humana e como um processo social, cabe à reflexão não apenas um papel mas também um lugar. A linguagem é o lar da reflexão, contudo não
pode oferecer transparência,
“verdade”, “fatos” ou “autenticidade” — nem uma “emancipação” prazerosa para sua arrogância. Num diálogo,
os significados nunca são
“dados”95
ou “bits”/bocados de afetos como no espaço simbólico
ou na velocidade simbólica
que é a comunicação no
ciberespaço.
A
transferência da educação modeladora da modernidade à educação modeladora da pós-modernidade
deixa intocada a educação
modeladora e não
altera o significado da opressão e da emancipação.
Nem abriu novas possilidades para tratar ou suplantar a classe, a raça, o gênero, a etnia e outras manifestações de opressão,
mistificação e desumanização do Outro e do self , como afirmado pelos
pos-modernistas “soft”. Como demonstrei, tornou mais problemática do que antes a luta contra a educação modeladora e contra o presente estado das
coisas.
A contra-educação e o ciberespaço como máquina do prazer
Na
melhor das hipóteses,
afirmo, o ciberespaço é uma
gigantesca máquina
do prazer. Nela, o sujeito é
desfalcado de sua alteridade e perdemos o espaço para o diálogo e para a transcendência do dado. Como, então, deveria perguntar, é possível enfrentar essa máquina do prazer, se é que há alguma chance? Será possível desafiar a auto-evidência ou o dado self
no interior de uma máquina
que oferece prazer total e que contém avanços a
novas experiências
e coloca novos prazeres à disposição do sujeito? Uma resposta possível é não.
É impossível ao próprio sujeito desligar-se da máquina do prazer final desde que onde há prazer total e
unidimensional ou busca de prazer desaparece a autonomia e sua responsabilidade
pelo “ainda-não” ou
contra o mal. Aqui, onde se
abandona a alteridade, onde o sujeito se abstrai de sua possível autonomia e responsabilidade, desaparece o
espaço para diálogo com a alteridade do Outro. A contra-educação, parece, é impossível quando não há espaço para o eros e para aquele tipo especial
de transcendência
como ato ético de negação da mesmice e do dado.
Acho,
no entanto, que mesmo no ciberespaço como máquina
do prazer o sujeito sempre se torna apenas um “sujeito” e não um mero objeto — não interessa o quanto se devote ao nada como se este fosse o lar pelo qual sempre tanto sonhou.
Mesmo como um cidadão
devoto do ciberespaço que
se tornou um simples “sujeito”,
ele está exposto a todo momento à abertura do ser: o
“totalmente outro” pode explodir do “exterior” do sistema e “desligá-lo”. O
imprevisível e o incontrolável que são incubados no ser como abertura infinita poderia reformular o mundo e
fazer renascer o que foi esquecido ou desconstruído na Net : o eros, a reflexão, a transcendência
e o Eu ético então saltariam com indomável pulo de tigre a um diálogo historicamente situado.
É essa
possibilidade que pode forçar o
agente da máquina
do prazer a ficar face a face com sua (ausente) humanidade e com a falta de
significado da vida não
apenas no ciberespaço mas
também na utopia do diálogo. A utopia negativa poderia introduzí-lo como
um ímpeto pela luta que deixa a
utopia positiva ingênua
para alcançar a
maturidade humana e a autoconstituição sem afirmações
essencialistas ingênuas
e sem o prometido escapismo da máquina do prazer da pós-modernidade. A imprevisibilidade do ser poderia abrir a
possibilidade de enfrentar os desafios fundamentais da humanidade. Num
instante, ele poderia tornar-se um sujeito e a contra-educação emergiria como uma utopia (negativa) concreta
pela qual vale a pena lutar. Basta isto para que seja possível manter a contra-educação como relevante mesmo que no ciberespaço.
Outra
fonte de relevância é a
construção sociocultural em que o
ciberespaço se efetiva. A cidadania no
ciberespaço como máquina do prazer é condicionada pelo capitalismo global, que
reproduz desigualdades sociais entre aqueles que têm capital cultural e habitam a máquina do prazer e aqueles que
o sistema determina como excluídos. Esta desigualdade, esta alienação e injustiça,
esta recusa ao diálogo,
tornam a contra-educação
relevante e não
apenas para os que são
deixados lá fora da máquina do prazer e que batem à porta para serem admitidos
e possam ficar “ligados”. A
contra-educação
também se torna relevante para
aqueles que já estão dentro do novo lar que a condição pós-moderna
construiu. Mas o preço que
pagam é a luta esmagadora para tornar-se parte da mesmice e juntar-se à
insignificância
dos opressores, que só admite sofrimentos e se mostra infensa a suas
paixões, esperanças e linguagens. A contra-educação, no entanto, só pode ser negada, suplantada
e combatida pela reflexão e
pela transcendência
ali onde ainda haja alienação e
alteridade (potencial) que permita a realização do Eu ético
e a luta pelo estabelecimento do diálogo.
A
efetivação da contra-educação é condicionada por muitos componentes que o êxito
da condição pós-moderna tem tornado impotentes. Quando os críticos propõem
suplantar os “perigos” e os
constrangimentos embutidos no ciberespaço, assumem que a subjetividade do sujeito está mantida e que este pode
escolher entre diferentes opções,
emancipar a si e aos outros, efetivando o Espírito crítico
nessa nova arena. Para nós, a
própria crítica, bem como a “escolha” entre “diferenças”, podem esconder a mesmice imposta pelo sistema como parte de sua
reprodução. Para nós, a efetivação do Espírito
crítico não está garantida e, com certeza, ainda não é compreendida por si mesma. O exílio do Espírito e a subjetivação que
produz um “sujeito” tornam a contra-educação uma utopia, pois o sujeito e o diálogo hoje se reduzem a uma utopia. É justamente por isso que a contra-educação é relevante, frente à pretensão de se realizar a utopia na máquina do prazer e frente a frente com a miséria, a dor e as paixões irrealizadas que tornam possível a produtividade do sistema capitalista, coroado agora pelo
ciberespaço.
* Alguns termos da informática são traduzidos quando possível ,
mas referidos no original quando o
texto o exija. É o
que ocorre com “link” (= ligação, elo,
conexão), “web” (teia, em www= wide
world web ) e “net”(Internet=rede); “hard” (exaltados) ou “soft”
(moderados) (nota do tradutor)
* Moos e Muds – jogos no estilo
RPG na Internet em que vários usuários operam ao mesmo tempo. (nota do
tradutor)
* Self- o eu, a própria pessoa, a
personalidade. (Michaelis, São Paulo/Wiesbaden: Melhoramentos/Brockhaus, 1973)
1 Peters, M. and Lankshear,
C. (1996) Critical Literacy and Critical Texts, Educational Theory 46,
1, p. 61.
2 Ibid., p. 53.
3 Lankshear, C. Peters, M e
Knobel, M. - Critical Pedagogy and Cyberspace, in Giroux, H. ,
Lankshear, C. , McLaren, P. & Peters, M. (eds.) Counternarratives:
Cultural Studies and Critical Pedagogies in Postmodern Spaces, (Nova
Iorque, 1996) p. 149. Peters, M. & Lankshear, C. - Critical Literacy and
Critical Texts, Educational Theory (1996) 46, pp. 52-53.
4 Ibid. , p. 160.
5 Knobel, M. – Critical
Literacy and the New Technologies, http://www.schools.ash.org.au/litweb/michele/html
06-08-1998.
6 Muffoleto, R. – Towards a Critical Pedagogy of
Media Education,
http://muffoleto/coe.uni.edu/summer96/critical-pedagogy.html. 17-01-1999.
7 Landow, G. - Hypertext: the Contemporary Critical
Theory and Technology (Baltimore e Londres, 1992), p. 23.
8 Kellner, D., Media Literacies and Critical
Pedagogy in a Multicultural Society,
http://www.gseis.ucla.edu/courses/ed253a/newDK/medlit.htm. 12.1997.
9
Menser M. e Aronowitz, S. - On Cultural Studies,
Science and Technology, in Aronowitz, S. Martinsons, B. Menserr, M. e Rich J. (eds), Technoscience and
Cyberspace (Nova Iorque e Londres, 1996), p. 14.
10 N. Burbules e Rice, S.
- “Dialogue across Differences:
Continuing the Conversation”, Harvard Educational Review (novembro de
1991)61, 4, p. 397.
11 Landow, G. - Hypertext:
the Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, (Baltimore,
1992) p. 2.
12 Lankshear, C., Peters, M. & Knobel, M., Critical Pedagogy and
Cyberspace, p. 155.
13 Ibid., 160.
14 Freire, P. -
Pedagogy of the Oppressed (Jerusalém,
1981) p. 37 (em hebraico).
15 Ibid., p. 40.
16 Ibid., 84.
17 Ibid., pp. 97-103.
18 Giroux, H. - Culture and the Process of
Schooling, (Philadelphia, 1981), p. 70.
19 Ibid.,
p. 82.
20 Ibid., p. 83.
21 Giroux, H. -
Border Pedagogy and the Politics of modernism/postmodernism, JAE,
(1981) 44, 2, p. 72.
22 Ibid. p. 161.
23 Landow, ibid. , p. 5.
24 Burbules, N., Rhetorics of the Web: Hyperreading
and Critical Literacy.
25 Ibid.
26 Taylor, M. & Saarinen, E. - Imagologies: Media Philosophy,
(Nova Iorque, 1994), p. 2.
27 Ibid., Simcult 3.
28 Burbules, N. Aporias, Webs and Passages
(aguardando publicação no Curriculum Inquiry).
29 Lanshear, Peters & Knobel, ibid. , pp.
151-153.
30 Ibid. p. 154.
31 Kellner, ibid. , p. 7.
32 Dery. </ - Flame Wars in Flame Wars: the Discourse of
Cyberculture, (Duke, 1994) p. 7.
33 Ibid, p. 167.
34 Kellner, ibid., p. 7.
35 Ibid., p. 11.
36 Peters & Lankshear, p. 65.
37 Knobel, Critical Literacy and new Technologies, p.
6.
38 Ibid., 9.
39 Gur-Ze’ev, I – Walter Benjamin and Max Horkheimer:
from Utopia to Redemption, Journal of Jewish Philosophy and Thought 8,
pp. 119-155.
40 Marcuse, H. – Die Zukunft der Kunst, Neues Forum S.,
(novembro/dezembro de 1967) p. 863-870.
41 Marcuse, H. – Liberation
from the Affluent Society, in David Cooper (ed.), The Dialectics of
Liberation (Londres, 1971) p.
185.
42
Landow, ibid.
43 Clinton, B. State of the Union Address, White
House, 1997.
http://www.whitehouse.gov.WH/SOU97/
44 Dyson, E., Gilder, G.,
Keyworth G. & Toffler, A. – Cyberspace and the American Dream: a Magna
Carta for the Knowledge Age, Release 1.2, Progress and Freedom Foundation,
Washington, D.C., August 22, 1994,
em
http://www.townhall.com/pff/position.html
17-08-1999.
45 Winner, L. – Cyberlibertarian Myths and the
Prospects for Community,
http://www.rpi.edu/~winner/cyberlib2.html
17-08-1998.
46 Poster, M., The Net as a Public Sphere?
http://www.wired.com/wired/3.11/departments/poster/if/html
47 Poster, M., CyberDemocracy: Internet and the
Public Sphere,
http://www.hnet.uci.edu/mposter/writings/democ.html 12-11-1998, p. 11.
48 Standish, P. Only Connect: Computer Literacy from
Heidegger to Cyberfeminism, Conference Papers of the Philosophy of Education
Society of Great Britain (Oxford, 1998) , pp. 100-116.
49 Tenenbaum, A. Prolegomena
for a ‘Post-critical’ Education,
in Gur-Ze’ev, I. (ed) Critical Theory and Education – Studies in Education 2,
2, p. 93.
50 Landow, Ibid, pp. 3, 25.
51 Lyotard, J.F. – The Postmodern Condition: a
Report on Knowledge, traduzido
por G. Bennington e B. Massumi (Manchester, 1991) , p. 67.
52 Landow, ibid., p. 66.
53 McLaren, P. – Critical Pedagogy and Predatory
Culture (Nova Iorque, 1995), p. 226.
54 Ibid., 179.
55 Ibid.
56 McLaren, P. – Revolucionary Multiculturalism (Oxford,
1997), p. 231.
57 Ibid, p. 230.
58 McLaren, P. _ Che, the Pedagogy of Che Guevara:
Critical Pedagogy and Globalization Thirty Years After Che. Cultural
Circles, 3, (verão de 1998) p. 80.
59 McLaren, P. – Traumatizing Capital: Oppositional
Pedagogies in the Age of Consent, in Castells, M., Flecha, R., Greire, P., Giroux, H., Machedo,
D., Willis, P. Critical Education in the New Information Age (London, no
prelo) , p. 30.
61 Harvey, D. The Condition of Postmodernity, p.
47 (citado in Norman
Fairclough, Global Capitalism and Critical Awareness of Language.
http://www.schools.ash.org.au/litweb/norman1.html 24-6-1999, p.2
62
Jameson, F. – Postmodernism, or The Cultural Logic of Late Capitalism,
(Durham, 1991).
63 Arnold, M. – The High-Tech, Post-Fordist School, Interchange,
27, 3-4, (1996) p. 229.
64Virilio, P. – Speed and Information: Cyberspace
Alarm! Le Monde Diplomatique, traduzido por Riemens, P. in http://www.ctheory.com/a30-cyberspace_alarm.html. p. 2 (17-8-1998)
65
Adorno, T. & Horkheimer, M. Dialektik der Aufklaerung
(Frankfurt a.Main, 1988), p. 1-2.
66 Habermas, J. Der Politische Diskurs der Moderne
(Frankfurt a. Main, 1989) , p. 136.
67 Horkheimer, M. – Die Sehnsucht nach dem ganz
Anderen, Gesammelte Schriften, 7 (Frankfurt a. Main, 1985) , p. 385-404.
68 Levinas, E. – From Existence to Ethics, The
Levinas Reader (Oxford, 1989) , p. 47.
69 Deleuze G. e Guattari, F. What
is Philosophy? tradução por
Tamlinson, H. & Burchell, G. (Nova Iorque, 1989), p. 10.
70 Virilio, Paul, ibid.
71 Bauman, Z. – Is there a Postmodern Sociology, Culture
and Society, 5, 2-3, 222.
72 Lanham, L.R. –The
Electronic World: Democracy, Technology, and the Arts. (Chicago e Londres,
1993), pp. 34-37.
73
Gur-Ze’ev, I – The exile of Spirit and Counter-Education, in Philosophy,
Politics and Education in Israel. (Haifa, no prelo)
74 Masschelein, J. – Wandel der Öffentlichkeit und das Problem der Identität¸
Zeitschrift für Pädagogik 28 (1992) p. 62.
75 Gur-Ze’ev, I. – The
Morality of Acknowledging/Not-acknowledging the Other’s Holocaust/Genocide, Journal
of Moral Education, 27, 2, (1998), p. 161.
76 Gur-Ze’ev, I. – Toward a
Nonrepressive Critical Pedagogy, Educational Theory, 48, 4, p. 463.
(1998)
77 Gur-Ze’ev, I. – Modernity, Postmodernity and
Education (Introduction) in Gur-Ze’ev, I. (ed.) Modernity, Postmodernity and
Education. (Tel-Aviv, no prelo).
78 Peters and Knobel, Ibid.¸p. 149.
80 Lankshear, Peters e Knobel, ibid, p. 161.
81 Turkle, S. The Second Self: Computers and the
Human Spirit. (Nova Iorque, 1985) , p. 276.
82 Garrison, J. – Foucault, Dewey, and Self-creation,
Educational Philosophy and Theory 30, 2, (1998) p. 111.
83 Lankshear,Peters and
Knobel, ibid.
84 Rice,
S. e Burbules, N. – Communicative Virtues and Educational Relations,
http://www.ed.uiuc.edu/pes92-does/rice_burbules.htm 1.12.1999.
85
Burbules, N. – Rhetorics of the Web: Hyperreading and Critical Literacy,
http://www.ed.uiuc.edu/facstaff/burbules/ncb/papers/rhetorics.html. p. 2
– 11.8.1998.
86 Taylor, C. Multiculturalism and “the Politics of Recognition”(Princeton,
1992), p. 41.
87 Gur-Ze’ev, I. – The Frankfurt School and the
History of Pessimism (Jerusalém, 1996) , p.
21.
88 Levinas, E. Ethics and the Infinite;
Conversations with Philippe Nemo, tradução de
Meir, E. (Jerusalém, 1982) , p. 76, (em hebraico).
89 Taylor, C. – The Ethics of Authenticity
(Cambridge e Londres, 1991), pp. 50-51.
90 Ibid. 52.
91 Turkle, S. Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet. (Nova Iorque, Londres e Toronto, 1995), p. 20.
92 Levinas, E. – God and Philosophy, Collected
Philosophical Papers
(Dordrecht, 1987), p. 166.
93 Rice & Burbules, Communicative Virtues and
Educational Relations, pp. 4-6.
94 Levinas, E. – Philosophy and the Idea of Infinity,
in Collected Philosophical Papers, tradução
de Lingis, A. (Dordrecht, Boston e Lancaster, 1978).
95 Gur-Ze’ev, I. , Masschelein, J. e Blake, N. –
Reflection, Conference Papers of the Philosophy of Education Society of
Great Britain. (Oxford,
1998), p. 224.